
Radar Nafta & Coluna de Estratégia CAP.M | Edição Especial
Por Marcelo Mason
EUA e Irã fecharam um cessar-fogo de duas semanas. Ormuz será reaberto. O petróleo caiu 16% no anúncio. O mercado respirou aliviado.
Quem trabalha com resinas no Brasil não pode se dar a esse luxo. Não porque o conflito não tenha arrefecido mas porque ele expôs, de forma irreversível, uma fragilidade que a indústria brasileira de plásticos vinha administrando como se fosse conjuntura. Não é. É estrutura.
O que o cessar-fogo não desfaz
Há uma diferença fundamental entre o Estreito abrir e a cadeia petroquímica funcionar. As plantas da SABIC em Jubail pegaram fogo. Ras Laffan no Qatar está com dois trens de produção destruídos com estimativa de até cinco anos para reparos completos. Ruwais, nos Emirados, foi paralisada. 85% da capacidade petroquímica do Irã foi fisicamente atingida. Abrir o Estreito não reconstrói reator destruído por estilhaços.
Tem ainda o problema que pouca gente está calculando. Os tanques de armazenamento nos portos do Golfo estão cheios. Para reativar campos e refinarias, o primeiro passo obrigatório é esvaziar esses tanques e isso só acontece quando os navios-tanque voltarem a circular em volume. Isso leva semanas. O tempo real do mercado não é o tempo diplomático.
O cenário por horizonte é direto. Nas próximas quatro semanas, não há alívio: a demanda represada de seis semanas encontra uma oferta que ainda não consegue se mover. Nas oito semanas seguintes, uma acomodação começa a se desenhar, mas a níveis permanentemente mais altos, com Brent projetado acima de US$ 95 e os primeiros carregamentos do Golfo chegando disputados por múltiplos mercados simultaneamente. Para o restante de 2026, o cenário é de reestruturação permanente. A estrutura de mercado de 2025 não volta.
O Brasil estava preparado para isso?
A resposta honesta é não. E o problema não começou em fevereiro de 2026.
O Brasil importa mais de 50% do polietileno que consome. Essa dependência foi sendo construída ao longo de anos, alimentada por uma combinação de fatores que o setor conhece bem mas raramente nomeia com a clareza que o momento exige: a Braskem opera com nafta de petróleo pesado do pré-sal, estruturalmente cara frente ao etano americano e ao gás do Golfo; a capacidade instalada doméstica não acompanhou o crescimento da demanda de transformação; e o mercado se acostumou a importar resina asiática e do Golfo a preços abaixo do custo de reposição nacional, tratando isso como vantagem competitiva permanente.
Não era. Era fragilidade disfarçada de eficiência.
O mecanismo antidumping, que voltou à pauta nos últimos anos, sempre foi tratado como ferramenta de proteção pontual, uma resposta a preços artificialmente baixos de PE chinês e americano. Mas o que a guerra do Irã deixa claro é que o antidumping é, na melhor das hipóteses, gestão de sintoma. O problema real é a ausência de soberania sobre o insumo mais crítico da cadeia de embalagens e bens de consumo do país.
Quando o Estreito de Ormuz fechou, o Brasil não tinha estoques estratégicos, não tinha rotas alternativas consolidadas e não tinha capacidade doméstica ociosa para acionar. Tinha dependência e uma fatura chegando.
O recado para transformadores e marcas
O anúncio do cessar-fogo vai gerar pressão imediata para reverter os reajustes das últimas semanas. Clientes vão querer precificar a queda do petróleo de ontem. É natural. E está errado.
A infraestrutura que produzia a resina que abastecia esse mercado continua destruída. O custo de reposição não caiu. A oferta não voltou. O que mudou foi o noticiário, não a cadeia. Transformador que ceder agora, cede sem fundamento. Marca que pressionar agora, pressiona sem argumento.
O mercado continuará alto. Quem entende a cadeia, sabe disso.
O que precisa mudar, e não vai mudar sozinho
A guerra do Irã não criou a vulnerabilidade brasileira. Ela apenas a testou, e o teste foi reprovado.
A agenda que o setor precisa colocar na mesa vai além da discussão de preço de resina. Envolve política industrial de verdade: expansão da capacidade de craqueamento doméstico, diversificação de feedstock incluindo etano de gás natural do pré-sal, estoques reguladores mínimos para insumos críticos, e uma visão de cadeia que trate o polietileno não como commodity de importação, mas como insumo estratégico de soberania industrial.
Enquanto o Brasil não tiver essa conversa com seriedade, cada novo choque geopolítico vai chegar da mesma forma: de surpresa, com fatura alta e sem resposta imediata disponível.
O Estreito de Ormuz vai abrir. O próximo ponto de estrangulamento já está sendo construído em algum lugar que ainda não estamos monitorando.

Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, consultoria estratégica especializada em crescimento, assuntos regulatórios e ESG para a cadeia de plásticos e embalagens. É colunista de estratégia e mercados da Revista Plástico Sul América e coordenador do Radar Nafta — serviço de inteligência de mercado publicado semanalmente em parceria com a PSA.