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A BRASKEM QUE O MERCADO AINDA NÃO APRENDEU A LER

22 de abril de 2026
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CADERNO ESTRATÉGICO CAP.M | em parceria com Plástico Sul América

Por Marcelo Mason | CAP.M Consulting

Vinte anos nessa cadeia me ensinaram uma coisa: o setor de plásticos tem uma relação estranha com a Braskem. Quando ela vai mal, o mercado culpa a gestão. Quando vai bem, todo mundo atribui ao ciclo. Raramente alguém faz uma leitura do que está de fato sendo construído.

Na última segunda-feira, a Novonor formalizou a transferência do controle da maior petroquímica da América Latina para a IG4 Capital. O comunicado ao mercado foi técnico, medido, sem exageros. E é exatamente por isso que vale ler nas entrelinhas.

A IG4, gestora de Paulo Mattos e especializada em reestruturação de ativos complexos, adquiriu 50,1% do capital votante da Braskem sem desembolsar um real em caixa — a operação foi estruturada via troca de debêntures da Novonor, num negócio que envolveu os cinco maiores bancos do Brasil. A Petrobras permanece como co-controladora, com governança compartilhada: consenso obrigatório em todas as deliberações relevantes, número igual de indicados no conselho e na diretoria.

Antes de comentar o que isso significa, é preciso entender quem vai ocupar a cadeira.

O novo CEO será Helcio Tokeshi, sócio da IG4 que estava à frente da operação de ativos portuários da firma. Economista com passagem pelo Banco Mundial, ex-secretário de acompanhamento do Ministério da Fazenda no primeiro governo Lula, foi sócio da GP Investments e ex-McKinsey nos EUA e Brasil. Na diretoria financeira, Carlos Brandão, que comandou a Iguá Saneamento e foi CFO da Oi entre 2017 e 2019, participando de uma das maiores recuperações judiciais da história corporativa brasileira. Completando o time: Camila Tapias na diretoria jurídica, compliance e ESG; Luiz Rossato em planejamento estratégico e M&A e Hélio Novaes, ex-sênior partner da Alvarez & Marsal, como vice-presidente do conselho. Esse não é um time montado para gerir uma petroquímica em velocidade de cruzeiro. É um time montado para salvar uma empresa de dentro para fora.

O paralelo que me parece mais honesto não é com outras petroquímicas. É com a Raízen.

A empresa de energia e açúcar do grupo Shell-Cosan vive, neste momento, um processo de reestruturação financeira, acompanhada mensalmente pelos credores. Dívida elevada, geração de caixa sob pressão, ciclo de investimento pesado e um modelo de negócio que o mercado demorou a precificar corretamente. A diferença — e ela é relevante — é que a Raízen tem ativos estratégicos incontestáveis, posição de mercado consolidada e uma estrutura acionária que oferece credibilidade ao processo.

A Braskem tem os mesmos elementos. Dezoito plantas no Brasil, operações nos Estados Unidos, na Europa e no México via Braskem Idesa. Tecnologia proprietária de polietileno verde. A única produtora de resinas de escala no hemisfério ocidental fora dos Estados Unidos. Ativos que, num contexto de cadeia global sob stress — como o que estamos vivendo com Ormuz — ganham uma relevância estratégica que nenhum analista estava precificando há seis meses.

O que destruiu a Braskem não foi o ativo. Foi a sobreposição de três crises simultâneas: operação Lava Jato, o desastre ambiental de Maceió e o ciclo global de oversupply que derrubou as margens de 2022 a 2026. Com cerca de US$ 100 milhões em juros a pagar no meio do ano, a Braskem discute uma possível recuperação extrajudicial ou judicial com seus credores que, na minha leitura, é o instrumento e não o diagnóstico. Esse mecanismo, se acionado, não liquida a empresa. Organiza o passivo para que a operação continue funcionando enquanto a reestruturação avança.

A Oi fez isso. Carlos Brandão estava lá. A Iguá Saneamento fez um processo parecido em escala menor. A diferença agora é que a Braskem entraria nesse processo com um ativo industrial que o mundo vai precisar cada vez mais — e com um ciclo petroquímico que, pela primeira vez em quatro anos, está virando a favor."

O comprador pretende conduzir, em conjunto com a Petrobras, a reestruturação financeira e operacional da companhia, com a intenção de que a Braskem volte a gerar valor para seus acionistas e para o Brasil", disse a empresa no comunicado ao mercado. Há quem leia isso como protocolo corporativo. Eu leio como compromisso público com prazo de entrega.Para quem trabalha na cadeia de plásticos e embalagens, o que acontece com a Braskem nas próximas semanas importa por razões bem mais diretas do que o valor da ação.

Uma Braskem operacionalmente estabilizada com nova diretoria e passivo organizado é uma Braskem capaz de voltar a investir em capacidade, em inovação em biopolímeros e em contratos de longo prazo com os transformadores brasileiros. É também a única âncora nacional contra a dependência de resina importada que ficou ainda mais exposta com a guerra.

O pedido de recuperação, se vier, vai gerar manchete. A Braskem emergindo dele com um novo controlador focado em turnaround, uma Petrobras como sócia estratégica e um ciclo petroquímico que voltou a apertar a oferta global. Essa é a história que vai importar um ano depois.

E essa dinâmica o setor de plásticos ainda está aprendendo a ler.

Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, especializada em estratégia, marketing e ESG para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.

Este artigo integra a série de análise estratégica semanal CAP.M, publicada em parceria com a Revista Plástico Sul América.

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