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O PLÁSTICO QUE NÃO PASSA PELO ESTREITO

22 de maio de 2026
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Por Maurício Jaroski

O Brasil importou 3,32 milhões de toneladas de resina virgem em 2025. Recorde histórico. Mais da metade do PEAD que a indústria nacional consome vem de fora. Em abril de 2026, o Brent bateu US$ 126. Os fretes VLCC chegaram a US$ 423 mil por dia, outro recorde, dessa vez de todos os tempos.

E no meio disso tudo, o rPEAD subiu 38% e o rPP 32%. Não por virtude. Por aritmética.

A reciclagem não tem refinaria. Não tem nafta. Não tem rota pelo Golfo Pérsico. O plástico reciclado é processado em Pernambuco, no Paraná, em Goiás, em São Paulo, etc. Ele não passa pelo Estreito de Ormuz. Nunca passou. E isso, que durante anos foi tratado como detalhe operacional, virou de repente o argumento mais poderoso que o setor tem.

Mas a maioria ainda não percebeu.

A cadeia de reciclagem brasileira cresceu 54% em volume nos últimos nove anos, enquanto o mercado de resinas virgens cresceu 13% no mesmo período. Em 2024, o setor chegou a 1,012 milhão de toneladas de PCR produzido, com aplicações na agroindústria expandindo mais de 35% em um único ano, puxada por plasticultura, lonas e mangueiras. O setor existe, tem escala, tem metodologia de precificação indexada e rastreabilidade emergindo. Os dados do Indicador MaxiQuim, que acompanha o mercado há 12 anos, mostram essa curva com clareza que raramente aparece no debate público.

O que faltou por anos foi o argumento que fizesse o comprador parar de tratar PCR como escolha e começar a tratar como estratégia.

Ormuz forneceu esse argumento. Involuntariamente.

Com PP da China encarecendo 35% só em março e o PET internacional oscilando entre US$ 916 e US$ 1.300 por tonelada, o diferencial de competitividade do reciclado local deixou de ser discurso de ESG. Virou equação de custo. Quem já tinha rPEAD e rPP homologado no mix de março não precisou explicar sustentabilidade para o gestor de compras. O número falou sozinho.

O problema é que a janela para essa posição já estava fechando antes da crise.

Os preços baixos de sucata em 2025 desestimularam a coleta. Cooperativas com margem comprimida pagaram menos ao coletor. O coletor coletou menos. O estoque que parecia farto em janeiro virou escassez latente em abril. Quem esperou o preço do virgem subir para então correr atrás de fornecedor PCR encontrou o mercado reprecificado, com capacidade finita e contratos assinados por quem chegou antes.

Isso não é especulação. É o que o MXQ Prices registrou em tempo real no seu contato com o mercado para a tomada de preços do mercado de reciclagem.​

A alta que não se materializou plenamente em março, represada por cautela dos compradores e estoques ainda altos, migrou integralmente para abril. rPEAD: +27,4%. rPEBD: +24,3%. rPP: +22,1%. Poliolefinas lideraram. rPET ficou para trás, não por mérito, mas por lógica própria de mercado, com preços historicamente já acima do PET virgem e câmbio pressionando, o espaço de valorização foi menor no curto prazo.

Março reprecificou. Abril realizou. Maio tende a manter movimento de alta.

E ainda tem o Decreto 12.688.

Meta de 22% de conteúdo PCR mínimo em embalagens plásticas já vigente em 2026, escalando para 40% em 2040. Primeiro relatório de cumprimento obrigatório em 2027. SISREV-BR ainda incompleto, portarias ainda em estágio final de construção e implementação, fiscalização ainda com dúvidas de como será feita – tudo verdade. Mas fornecedor PCR com rastreabilidade e homologação não aparece em 60 dias. A cadeia qualificada leva tempo. Quem esperar o decreto mostrar dente para começar a construir o relacionamento com o reciclador vai disputar material com quem começou um ano antes.

O cenário mais provável para 2026 não é adesão integral, a infraestrutura não comporta. Mas também não é o abandono, os sinais de movimentação já aparecem nos dados de mercado. Existe uma adesão parcial e seletiva: grandes empresas em busca ativa de fornecedores qualificados, PMEs em compasso de espera, preços pressionados de forma gradual e assimétrica. Quem está do lado certo dessa assimetria já sabe.

Há um terceiro vetor que quase ninguém está calculando: a relação do preço do diesel no mercado.

A correlação entre diesel e custo de sucata não é poética, é física. Coleta seletiva roda em caminhão. Sucata percorre em média 150 a 400 km entre o ponto de coleta e o reciclador. O reajuste do diesel de março (+R$ 0,38 por litro), por exemplo, adicionou um custo de R$ 0,03 a R$ 0,06 por quilo no preço da sucata transportada.

Aparentemente parece um reajuste pequeno quando olhado individualmente, mas é relevante quando multiplicado pelas 884 mil toneladas de embalagens recicladas por ano no Brasil.

O argumento "diesel subiu, sucata sobe" é simplista. Mas a correlação é real, e ela fecha o ciclo.

Cinco vetores chegaram ao mesmo tempo. Ormuz. Diesel. Decreto 12.688. Mercado da China. Antecipação de grandes compradores. Nenhum sozinho justificaria urgência. Juntos, redesenharam o piso de preços do mercado de PCR em semanas.

A alta de abril não foi pontual. Foi a liquidação de uma dívida que o mercado acumulou durante o ciclo de baixa.

Para o transformador que ainda trata PCR como alternativa emergencial: o material com rastreabilidade e qualidade homologada não espera. A capacidade instalada do setor é finita e a demanda latente das grandes marcas está se tornando real ao longo de 2026. Chegar por último é pagar mais por menos, e ainda correr o risco de não encontrar o que precisa.

Para a marca que ainda separa "projeto de sustentabilidade" de "decisão de compra": o Decreto 12.688 não vai aguardar o próximo ciclo de planejamento estratégico. E o argumento que seu financeiro vai querer usar em 2027, de PCR como hedge contra volatilidade petroquímica, só funciona se o fornecedor estiver qualificado antes.

Um país que quer reciclar metade do plástico que consome não depende de Ormuz para abastecer sua indústria. Não depende de frete VLCC. Não depende de geopolítica.O Brasil ainda está longe disso. A taxa geral de reciclagem mecânica é 21%. Embalagens chegam a 24,4%. Há espaço enorme. Mas o mercado começou a precificar o caminho e quem entende essa equação antes dos outros não está fazendo sustentabilidade. Está fazendo posição.​

Maurício Jaroski

Engenheiro químico, sócio-executivo e diretor da área de Economia Circular no Grupo MaxiQuim. Acompanha o mercado de resinas plásticas virgens e recicladas há mais de uma década, com dados publicados mensalmente pelo Indicador MXQ, referência de precificação para contratos em toda a cadeia de reciclagem nacional.

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