
Por João Luiz Zuñeda
Sócio fundador da MaxiQuim
A nova agenda regulatória do gás natural no Brasil pode representar muito mais do que uma mudança energética. Ela pode inaugurar um novo ciclo de competitividade industrial para o país e, especialmente, para o Rio Grande do Sul.
Durante muitos anos, a indústria brasileira conviveu com custos elevados de gás natural, baixa previsibilidade regulatória e dificuldades de acesso à infraestrutura. Enquanto Estados Unidos, Oriente Médio e parte da Ásia ampliavam competitividade através de gás abundante e barato, o Brasil perdia espaço industrial em diversos segmentos intensivos em energia e matérias-primas petroquímicas. Apenas em 2025, o déficit da balança comercial química brasileira superou US$ 48 bilhões, refletindo a crescente dependência de importações de produtos químicos, fertilizantes e resinas.
Agora, esse cenário começa a mudar. A ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) vem acelerando mudanças importantes no mercado de gás, buscando ampliar concorrência, acesso às infraestruturas essenciais e aumento da oferta energética. Paralelamente, o crescimento da produção no pré-sal, os avanços da Argentina em Vaca Muerta e o retorno das discussões exploratórias na Bacia de Pelotas criam um novo contexto estratégico para o Sul do Brasil.
Neste cenário, o Rio Grande do Sul pode assumir uma posição extremamente relevante através de duas potenciais rotas de suprimento energético. A primeira é a integração com o gás argentino via Uruguaiana, aproveitando o crescimento de Vaca Muerta, hoje uma das maiores fronteiras globais de shale gas fora dos Estados Unidos. A região já atraiu dezenas de bilhões de dólares em investimentos e vem ampliando fortemente sua infraestrutura de produção, processamento e exportação de gás natural e líquidos de gás.
A segunda oportunidade está ligada ao potencial desenvolvimento offshore da Bacia de Pelotas através de Rio Grande, criando uma nova infraestrutura energética e industrial no litoral sul brasileiro. Caso os projetos avancem, o estado poderá desenvolver uma nova cadeia integrada envolvendo gás natural, logística portuária, petroquímica e geração de energia.
A Petrobras possui papel central nesse possível novo ciclo. A companhia participa do Projeto Mega em Vaca Muerta, na Argentina, avalia oportunidades exploratórias na Bacia de Pelotas e também possui participação relevante na Braskem, principal petroquímica brasileira. Essa conexão entre gás natural, energia e petroquímica cria uma oportunidade estratégica importante para integração industrial no Cone Sul.
Os impactos potenciais para a cadeia de plásticos e petroquímica são extremamente relevantes. O gás natural não é apenas fonte de energia. Ele também é matéria-prima estratégica para fertilizantes, metanol, hidrogênio, amônia e diversas cadeias petroquímicas diretamente ligadas ao setor plástico.
O Polo Petroquímico de Triunfo pode ser um dos grandes beneficiados desse processo. O complexo possui posição estratégica na indústria brasileira e reúne algumas das principais operações petroquímicas do país. O acesso a gás mais competitivo pode alterar estruturalmente a competitividade da petroquímica brasileira, fortalecendo a produção de resinas termoplásticas, transformados plásticos, embalagens e produtos químicos de maior valor agregado.
Além disso, uma nova oferta de gás pode estimular investimentos em geração elétrica, data centers, hidrogênio de baixa emissão, biocombustíveis avançados e novas rotas petroquímicas mais sustentáveis. Em um mundo que discute reindustrialização, segurança energética e regionalização das cadeias produtivas, o Sul do Brasil pode ganhar protagonismo estratégico.
Outro ponto relevante é que essa nova infraestrutura energética pode gerar efeitos positivos muito além da petroquímica. Cadeias ligadas à transformação plástica, fertilizantes, logística, metalmecânica, alimentos, papel e celulose e até novos projetos de economia circular podem ganhar competitividade com uma matriz energética mais robusta e previsível. O gás natural tende a se tornar um dos principais pilares para atração de investimentos industriais no Sul do Brasil nos próximos anos.
Além disso, a combinação entre gás natural, petroquímica e potencial expansão portuária em Rio Grande pode fortalecer ainda mais a inserção internacional do Rio Grande do Sul. Em um cenário global de reorganização das cadeias produtivas e busca por maior segurança energética, o estado pode se posicionar como uma importante plataforma industrial e logística do Cone Sul, conectando Brasil, Argentina e mercados internacionais.
Existe ainda uma dimensão geopolítica importante. Enquanto a Europa enfrenta perda de competitividade energética e parte da Ásia segue altamente dependente do Oriente Médio, a América do Sul começa a construir uma narrativa baseada em integração regional, abundância de recursos naturais e estabilidade energética.
O eixo energético Argentina–Rio Grande do Sul–Sudeste brasileiro pode se transformar em um dos principais corredores industriais do Cone Sul na próxima década.
Particularmente, vejo este movimento com muito otimismo e estou torcendo para que o Rio Grande do Sul consiga capturar essa oportunidade histórica. Acredito que o estado possui capacidade industrial, logística, conhecimento técnico e posição estratégica para voltar a assumir protagonismo no cenário petroquímico e industrial brasileiro.

Por João Luiz Zuñeda
Sócio fundador da MaxiQuim