
CADERNO ESTRATÉGICO CAP.M | em parceria com Plástico Sul América
Por Marcelo Mason | CAP.M Consulting
Presenciei nesta semana uma negociação entre um transformador e seu cliente. O impasse era um só: o índice médio de preços, balizador do contrato, apontava um número e o transformador pedia outro.
Indexar contratos a indicadores de preços é prática comum e racional no nosso mercado. Parte-se de uma base 100, monitora-se a variação trimestral e aplica-se o reajuste quando a oscilação passa de 5% ou 10%. Em tempos normais, a distância entre o preço mínimo e o máximo praticados é estável, e a média representa bem a realidade. Justo para ambas as partes.
O problema é quando o tempo deixa de ser normal. A pandemia foi um exemplo; a guerra que estamos vivendo, para o mercado de resinas, é um caso ainda mais agudo. Me lembrei de uma palestra num evento da Maxiquim que citava a teoria do Cisne Negro, do estatístico e ex-trader Nassim Taleb: eventos altamente improváveis, de impacto extremo, e que só depois do estrago tentamos explicar racionalmente.

O gráfico que acompanha esta coluna mostra a teoria operando em tempo real sobre o polietileno no Brasil. Por cerca de dezoito meses, a banda de mercado correu estreita e paralela. Em 27 de fevereiro, dias antes da eclosão do conflito, o índice marcava R$ 11.600/t e a faixa entre mínimo e máximo era de R$ 1.750, um delta de 16%. Nesse cenário, a média é uma referência confiável.
Aí o evento raro atinge o sistema. E o choque não é apenas o preço subindo: é a incerteza explodindo. A banda se abre em formato de leque. Até 24 de abril, o índice subiu 59%, para R$ 18.400/t mas a largura da faixa explodiu 258%, para R$ 6.300/t, um delta de 41%. O detalhe que prova o caráter sistêmico do evento: grades diferentes de PE tocaram o pico de dispersão na mesma semana. Não era ruído de um produto; era a cadeia inteira operando sem referência de custo de reposição.
Taleb alerta para o perigo das médias em cenários de caudas gordas, quando os extremos acontecem com mais frequência do que a estatística tradicional prevê. Ele usa a imagem do rio: se a profundidade média é de um metro, mas no meio existe um buraco de quatro, você se afoga. Em abril, quem precificou contrato pela média estava atravessando exatamente esse rio. Um número único no meio de uma faixa de ±17% transforma a mesa de compras num cassino.
A lição prática é direta: em janelas de ruptura, negocia-se contra a banda: piso e teto e não contra o ponto médio. Uma regra simples ajuda a operacionalizar isso. Enquanto o delta da faixa roda abaixo de 10%, o índice lê bem o mercado. Acima de 25%, suspenda a precificação por índice e vá a cotação firme. O índice não é o vilão da história; ele apenas não foi desenhado para o caos.
E você? Como sua equipe se protege, contratual e financeiramente, quando essas bandas de incerteza explodem?

Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, especializada em estratégia, marketing e ESG para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.
Este artigo integra a série de análise estratégica semanal CAP.M, publicada em parceria com a Revista Plástico Sul América.