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O DIA EM QUE O PETRÓLEO CAIU E A RECICLAGEM PRENDEU A RESPIRAÇÃO

3 de julho de 2026
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Por Maurício Jaroski

Toda vez que o petróleo cai, alguém solta um “ufa” na indústria.  

Brent voltando a níveis anteriores à guerra no Oriente Médio, transporte marítimo normalizando, manchetes falando em “fim da crise” e “alívio para a economia global”.

Na cadeia de reciclagem de plásticos, esse “ufa” muitas vezes significa outra coisa: “lá vamos nós de novo”.

No primeiro artigo desta série, eu falei sobre o plástico que não passa pelo Estreito.   Mostrei como, em março, Brent a US$ 118, fretes VLCC em recorde histórico e PP chinês disparando fizeram do PCR um hedge geopolítico: enquanto a rota por Ormuz travava, o material reciclado processado no Brasil seguia disponível, sem risco de desabastecimento e competitivo.

A tese era simples: um país que recicla quase metade do plástico que consome não depende de choque externo para abastecer a sua indústria. PCR vira seguro contra volatilidade petroquímica, não apenas no discurso ESG.

Agora, o cenário virou (mais uma vez).

O petróleo recuou. As manchetes falam em normalização, em cotação voltando à casa de US$ 73, em fluxo de navios reaberto, em “alívio”. E é justamente aí que começa o problema para a reciclagem.

O ciclo clássico, que o setor conhece bem, funciona assim:

  • Petróleo cai, nafta cai, resinas virgens caem;
  • Importações baratas voltam a pressionar o mercado interno;
  • PCR perde competitividade aparente no curto prazo, não por piorar, mas porque a resina virgem ficou barata;
  • Compras de reciclado passam a ser renegociadas, postergadas, rebaixadas na prioridade.

Esse movimento não aparece em manchetes. Aparece em ligações, em reuniões de compras, em negociações de contrato.

O efeito é sempre o mesmo: coleta desestimulada, sucata em excesso hoje, sucata escassa amanhã.

Quando cooperativas recebem menos pela sucata, pagam menos ao catador. O catador coleta menos. A cadeia encolhe quando o insumo que ela oferece parece dispensável, e cresce quando o virgem aperta. Foi assim nos ciclos anteriores, e os dados de demanda de resina virgem e reciclada ao longo da última década mostram esse vaivém com clareza.

Reciclagem não sobe com o barril.

Só que 2026 não é mais um ciclo qualquer.

Há um novo elemento que não existia nos choques anteriores: obrigação regulatória.

O Decreto 12.688/2025 transformou logística reversa de plástico em compromisso com meta, prazo e sanção. Metas de recuperação de embalagens. Conteúdo mínimo de PCR em produtos plásticos. Responsabilidade direta do produtor, com risco de sanções da Lei de Crimes Ambientais para quem não cumprir.

Em 2025, isso era regulatório em construção.  

Em 2026, virou cronograma em diagrama de Gantt, linha de risco em compliance, pauta em reunião de conselho.

O que a queda do petróleo não muda é isso: a obrigação de usar reciclado não cai junto com o barril.

O falso alívio aparece exatamente quando duas curvas se cruzam:

  • A curva de preço do petróleo, recuando a níveis pré-guerra e criando sensação de “volta ao normal”;
  • A curva de exigência regulatória, subindo, com metas de conteúdo reciclado entrando em vigor e primeiro relatório público previsto para 2027.

Quando o gestor celebra o alívio de custos de resinas virgens e, por reflexo, empurra PCR de volta para o lugar de “opção”, está criando um desalinhamento perigoso: um passado de mercado (virgem barato domina) num futuro regulatório (PCR obrigatório).

Se o mercado repetir o reflexo antigo, virgem barato = esquece reciclado, 2027 não será um ano de comemorar custo baixo. Será o ano de correr desesperado atrás de PCR com rastreabilidade e qualidade num setor que passou dois anos desestruturado pela falta de demanda.

É exatamente o tipo de corrida que encarece tudo no pior momento.

Para a cadeia de reciclagem, a queda do petróleo é ambígua.

Ela reduz custos de energia, pode aliviar fretes, melhora a equação de algumas operações. Mas ela também abre espaço para o retorno do dumping de resina virgem, rebaixa o apelo econômico do PCR no curto prazo e testa a maturidade da demanda.

A pergunta que o primeiro artigo deixava era:

Você está tratando PCR como hedge ou como projeto de sustentabilidade?”

Com o petróleo caindo, ela ganha uma segunda camada:

“Você vai usar esse ‘alívio’ como licença para abandonar o hedge justo quando ele passa a ser obrigação?”

O papel da indústria de plásticos, especialmente dos grandes transformadores e marcas de consumo, não é torcer para que o barril caia e o virgem volte a ser irresistível. É aproveitar o alívio de curto prazo para fortalecer a cadeia de reciclagem, não para desmobilizá-la.

Porque quando o próximo choque vier, seja ele geopolítico, regulatório ou financeiro, não será o gráfico do Brent que abastecerá a fábrica. Vai ser o relacionamento construído com quem recicla plástico todos os dias, independentemente do que acontece em âmbito global.

Se você comemorar a queda do petróleo como licença para esquecer momentaneamente do PCR, está comprando um problema de 2027 com desconto em 2026.

Maurício Jaroski é engenheiro químico, sócio-executivo e diretor da área de Economia Circular no Grupo MaxiQuim. Acompanha o mercado de resinas plásticas virgens e recicladas há mais de uma década, com dados publicados mensalmente pelo Indicador MXQ, referência de precificação para contratos em toda a cadeia de reciclagem nacional. Contato: mauricio@maxiquim.com.br

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