
ESTRATÉGIA DA SEMANA
Antes de falar sobre plástico, iniciarei esta coluna falando sobre um desdobramento da Guerra no Irã que aconteceu com a Índia na semana passada.
No dia 12 de março, para manter sua produção rodando, a Índia pediu formalmente à China, em caráter de emergência, ureia. Não estamos falando de um país pequeno, que não tem opção, estamos falando do país mais populoso do mundo e que está pedindo socorro ao maior produtor de fertilizantes do planeta.
Quatro dias depois a China bloqueou exportações de NPK e estendeu a suspensão de fosfato até agosto.
Não foi resposta à Índia. Pequim simplesmente calculou que o enxofre do Golfo (mais da metade do que importa) não chegaria por causa do Estreito de Ormuz, e priorizou a proteção de 1,4 bilhão de pessoas. Reservas estratégicas ativadas. Exportações bloqueadas. O 15º Plano Quinquenal não dobra para a safra de ninguém.
China não agiu errado. Agiu dentro da própria lógica. O problema é dos países que construíram as cadeias deles como se essa lógica nunca fosse aparecer.
Preços de ureia subiram 40% desde o início do conflito. Bangladesh fechou quatro das seis fábricas de ureia. O Brasil, que importou cerca de um quinto dos fertilizantes da China no ano passado, está na linha direta de pressão. E o que é mais grave: entre metade e 80% do volume que a China exportava para cá está agora bloqueado, segundo análise da Reuters de dados aduaneiros chineses.
Guarda essa história. Vou voltar nela.
Agora troca fertilizante por resina plástica.
Entre 2023 e 2024, a superoferta global derrubou o preço das resinas internacionais em mais de 30%. China, Oriente Médio, Estados Unidos, todos expandindo capacidade no mesmo ciclo, exportando com margem comprimida e chegando ao Brasil com preço que a petroquímica nacional não conseguia bater.

Para o transformador brasileiro a equação era simples. Resina mais barata do lado de fora, margem melhor, cliente satisfeito. É o que qualquer gestor faria. Eu faria. Você faria.
A participação do polietileno importado saiu de menos de 15% historicamente para mais de 50% do mercado nacional em 2024. Quase 4 milhões de toneladas de resinas internalizadas num único ano versus 2,7 milhões no anterior. O produtor nacional perdendo share dentro do próprio mercado, naquele ritmo silencioso que só aparece quando você soma os trimestres.
Com o produto importado tomando mais da metade do mercado, o setor foi ao governo. antidumping em PE americano e canadense. Polipropileno, PVC e fibras de poliéster. Alíquota de importação de resinas subindo de 12,6% para 20%.
Em um segundo ato foi a vez da transformação também começar a sofrer com a importação de produtos acabados ou semiacabados. Eles estavam muito abaixo do custo nacional de produção, então também entrou com pedido de antidumping.
Cada medida, individualmente, estava correta. O conjunto todo contando uma história diferente: a de um setor que foi gerenciando sintomas enquanto a causa ficava intocada.
Agora o barril está na casa dos US$ 80+ e os dois lados ficaram caros ao mesmo tempo. Resina importada pressionada pelo frete, pelo câmbio, pela guerra. Resina nacional pressionada pela NAFTA, que não tem passaporte: sobe igual, independentemente de onde a resina é produzida. O transformador que desmontou a relação com o produtor local para perseguir centavos está comprimido nos dois extremos.
Volta à Índia.
O que me interessa naquela história não é a falha da China em ajudar. É a lógica que ela demonstra, que é a mesma que qualquer governo, qualquer empresa, qualquer cadeia executam quando os insumos ficam escassos: sobrevivência própria primeiro. Não tem solidariedade no spot market quando o estoque acabou. Tem quem tenha reserva e quem não tem.
A Índia foi pedir ureia porque não tinha produção suficiente e nem estoque para segurar a safra. Tinha dependência, porém quando essa dependência virou problema, o fornecedor já havia fechado a porta.
O Brasil foi comprar resina importada porque estava mais barata. Faz sentido. Mas foi fazendo isso enquanto o produtor nacional perdia escala, perdia capacidade de investir, perdia a musculatura que é construída em volume constante ao longo dos anos. Quando a resina importada ficou cara de novo, a alternativa local estava menor do que antes.
Antidumping resolve o curto prazo. Não devolve os anos em que a indústria local perdeu mercado.

Tenho mais de vinte anos de vivência nessa cadeia. Vi esse ciclo algumas vezes, não idêntico, mas com a mesma estrutura. Bonança de oferta global, migração para importado, enfraquecimento do produtor local, crise externa, corrida por proteção. O antidumping é sempre o último capítulo, não o primeiro.
O que nunca vi ser discutido com a seriedade que merece é o que vem antes. A decisão, tomada empresa por empresa em tempos de mercado com superoferta, de manter relação com o produtor nacional mesmo quando o importado está alguns centavos ou até reais mais barato. O contrato de médio prazo que garante volume previsível para quem produz localmente investir em capacidade. A compreensão de que cadeia resiliente não se constrói no momento da crise.
Indústria nacional não é protecionismo. É a apólice que você paga em tempo bom para não quebrar em tempo ruim. A Índia tem 17,7 milhões de toneladas de fertilizante como estoque de segurança, não solução, mas é o que está entre ela e o colapso da safra. Alguém decidiu pagar esse seguro antes de precisar dele.
O Brasil tem base industrial. Tem a petroquímica nacional, tem um parque transformador de mais de 12 mil empresas, tem cadeia regional na América do Sul, que inclusive poucos países em desenvolvimento conseguiram construir. O que falta não é capacidade, é o reconhecimento de que essa capacidade tem valor que não aparece na planilha de custo do mês.
Crise não cria fragilidade. Ela revela a que já estava lá.
A pergunta que fica não é o que fazer agora que o barril está na casa dos US$ 80/100/120. É o que fazer para que a próxima crise, que vai chegar com outro nome, outro pretexto, outra commodity, encontre uma cadeia diferente.

Marcelo Mason
Founder da CAP.M Consulting
Fundador da CAP.M Consulting, consultoria especializada em estratégia, marketing e ESG para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.
Este artigo integra a série de análise estratégica semanal CAP.M, publicada em parceria com a Revista Plástico Sul América.