
A crescente instabilidade geopolítica no cenário internacional, especialmente envolvendo o Oriente Médio, tem gerado reflexos diretos sobre cadeias produtivas estratégicas em todo o mundo. No Brasil, a indústria química, altamente dependente de insumos derivados de petróleo e gás natural, acompanha com atenção redobrada os impactos dessa volatilidade, principalmente no que diz respeito a preços, competitividade e abastecimento.
Embora ainda não existam efeitos plenamente consolidados no mercado brasileiro, o setor continua acompanhando com cautela tanto a oscilação dos preços internacionais do petróleo quanto os impactos regulatórios sobre os custos de frete e logística, elementos que influenciam diretamente a competitividade e o funcionamento das cadeias produtivas.
Para entender melhor esse contexto e seus desdobramentos, a Revista Plástico Sul América conversou com Eder da Silva, gerente de Economia e Comércio Exterior da Abiquim, que concedeu uma entrevista exclusiva detalhando os efeitos de curto, médio e longo prazo para o setor, além das estratégias adotadas para garantir estabilidade e resiliência. A seguir, confira os principais trechos.
(Revista Plástico Sul América) Qual é a visão da entidade sobre os impactos da geopolítica atual na indústria química brasileira?
Eder da Silva: Trabalhamos com diferentes cenários — seja uma resolução de curto, médio ou, infelizmente, de longo prazo para a situação no Oriente Médio — e avaliamos seus impactos sobre a indústria química e petroquímica, bem como sobre a estrutura produtiva brasileira e global de forma mais ampla.
No curtíssimo prazo, nossa atenção está especialmente voltada ao comportamento dos preços internacionais das commodities que funcionam como building blocks — as “peças de Lego”, por assim dizer — essenciais para diversos setores produtivos, em especial a química. Trata-se de uma indústria particularmente exposta às cadeias derivadas do petróleo e do gás natural, como é o caso da nafta petroquímica e de todos os seus desdobramentos ao longo da cadeia química e petroquímica.
(PSA) E, no curto prazo, quais são os principais pontos de atenção para o setor?
Silva: No campo do gás natural, frações como etano, butano e outros componentes utilizados como matérias-primas pela indústria química demonstram que seu potencial vai muito além do uso energético, que é o destino predominante em diversos setores industriais. A química, ao contrário, agrega valor a essas moléculas, transformando tanto as frações líquidas quanto o próprio metano em uma ampla gama de produtos.
A partir do metano, por exemplo, desenvolvem-se cadeias relevantes como a do metanol e inúmeros outros derivados do gás natural. O mesmo ocorre com subprodutos como o enxofre, que dá origem a toda uma cadeia ligada ao ácido sulfúrico e a diversos compostos orgânicos e inorgânicos.
Diante desse cenário, no curtíssimo prazo, estamos especialmente atentos às discussões relacionadas a preços, à volatilidade do mercado internacional e aos desdobramentos imediatos que esses movimentos podem gerar para a cadeia produtiva brasileira.
(PSA) Como essa volatilidade de preços impacta a competitividade da indústria nacional?
Silva: Todas essas matérias-primas citadas são usadas pelo setor químico como insumos e possuem correlação direta com os preços do gás natural e do petróleo.
Veja que, no final do mês passado, tínhamos um preço médio do Brent na faixa de 70 dólares o barril, enquanto, neste momento, está em 105 dólares. Veja o tamanho do desafio global em termos de custo de curto prazo e de adequação dos fatores de produção, em um momento de escalada de quase 30 a 35 dólares por barril, no caso do petróleo.
(PSA) E, olhando para o médio prazo, quais são os riscos adicionais?
Silva: Vamos supor que esse cenário possa transbordar um pouco do curto para o médio prazo. Começamos também a olhar para a questão da disponibilidade global desses insumos em termos físicos. Lembrando que o Estreito de Hormuz representa entre 20% e 25% de todo o trânsito internacional de petróleo e seus derivados.
Isso significa que, no curto prazo, entre 70% e 75% não estão sujeitos aos fluxos logísticos da região. Várias dessas outras praças produtoras de petróleo e gás têm utilizado reservas estratégicas e ampliado suas produções para garantir o abastecimento, sobretudo neste primeiro momento, no mercado de combustíveis.
(PSA) E, no longo prazo, quais mudanças estruturais podem ocorrer?
Silva: A posição da Abiquim é de que continuamos desejosos e esperançosos de que a situação tenha uma resolução entre o curto e o médio prazo. Mas, mesmo considerando cenários de longo prazo, o mais lógico é que as principais economias busquem reduzir cada vez mais sua dependência de insumos estratégicos do Oriente Médio.
(PSA) E quanto à relação entre petroquímica, fornecedores e clientes finais?
Silva: Temos uma ociosidade que significa disponibilidade. Trata-se de uma capacidade imediata de produção de cerca de 40% de toda a capacidade produtiva do setor.
Utilizamos cerca de 60% da capacidade instalada e temos 40% de ociosidade que pode ser imediatamente convertida em produção. Portanto, não há, em produtos químicos, risco de desabastecimento nem no curto nem no médio prazo.
(PSA) Há necessidade de ajustes estratégicos entre os elos da cadeia neste momento?
Silva: Quando olhamos de trás para frente, do consumidor para os demais elos da cadeia, vemos que as cadeias de transformação que utilizam produtos químicos estarão, no curto e no pré-médio prazo, abastecidas por produtos fabricados no Brasil.
Temos 40% de ociosidade que pode ser revertida em produção imediata e contamos também com os principais fornecedores, atualmente Estados Unidos e Ásia, que não estão pressionados quanto ao acesso ao mercado brasileiro e regional. Assim, as cadeias de transformação continuam abastecidas pelo setor químico.
(PSA) Como a indústria pode manter a sustentabilidade econômica diante da volatilidade?
Silva: Combater as operações predatórias e oferecer um ambiente de mercado saudável, para que a produção brasileira participe do mercado doméstico ou das exportações em condições equânimes, com competitividade leal frente ao produto importado, garantindo a sustentabilidade no médio prazo. É fundamental evitar uma avalanche de importações substituindo a produção nacional.
(PSA) Esse tripé de atuação é suficiente para sustentar o setor neste cenário?
Silva: Esse é, inclusive, o foco de atuação da Abiquim, estruturado em três eixos principais: o combate às operações predatórias, o reconhecimento do gás natural como molécula de transição e vetor de competitividade frente às principais geografias globais, e o REIQ/PRESIQ como grande alavanca para o futuro do setor.
A proposta é trazer essa agenda para o presente, retomando um ciclo positivo de investimentos, reconstruindo a atratividade do país e fortalecendo, de forma consistente, a competitividade da indústria química brasileira.
(PSA) Para finalizar, qual é a principal orientação da Abiquim às empresas diante desse cenário instável?
Silva: A principal mensagem da Abiquim é que a indústria química brasileira é um pilar estratégico de resiliência produtiva. Existe capacidade instalada, tecnologia, diversidade produtiva e suporte regulatório que permitem ao Brasil mitigar esses choques globais e preservar a segurança de suprimentos nas diversas cadeias de transformação que utilizam produtos nacionais e que se complementam com importados. Em síntese, não há, neste momento, qualquer discussão sobre desabastecimento no país.