
O agravamento dos conflitos no Oriente Médio já provoca efeitos concretos sobre a cadeia petroquímica global e começa a impactar diretamente o mercado brasileiro de resinas plásticas. A combinação de alta nos preços de matérias-primas, restrições logísticas e incertezas no abastecimento tem elevado custos, reduzido previsibilidade e tensionado a relação entre os diferentes elos da indústria, da produção ao consumo final.
Em comunicado, a Associação Brasileira de Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins (ADIRPLAST) alertou para um cenário de forte pressão sobre a oferta e os preços. Segundo a entidade, a escalada do conflito impulsionou o valor do petróleo, com reflexo direto na nafta, insumo essencial da indústria petroquímica, e, consequentemente, nas resinas plásticas, plásticos de engenharia e filmes biorientados. Para a presidente da ADIRPLAST, Cecilia Vero, os impactos já atingem toda a cadeia. “O conflito internacional tem levado a uma restrição sem precedentes da oferta e a aumentos expressivos dos preços ao longo de toda a cadeia. As empresas brasileiras não possuem estoques suficientes para sustentar, por muito tempo, uma eventual ruptura contínua na oferta, e os efeitos dessa limitação já começam a ser sentidos no mercado”, afirmou.
A avaliação é compartilhada pela indústria transformadora. Em entrevista, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis (ABIEF), Eduardo Berkovitz, destacou que a instabilidade afeta estruturalmente toda a cadeia de flexíveis, com impacto direto nos custos industriais. “Sem dúvida, esta instabilidade atinge toda a cadeia de flexíveis. A alta do petróleo eleva o preço da nafta e do gás natural, que pressionam o custo do eteno e propeno que são a base das resinas termoplásticas”, disse. Segundo ele, além do aumento de custos, a crise também tem efeitos logísticos relevantes, envolvendo restrições no Estreito de Ormuz, paralisações de produção, suspensão de rotas e encarecimento do frete e de seguros, ampliando a incerteza comercial. “O resultado é uma relação mais tensionada entre petroquímica, transformadores e clientes finais; o custo sobe, o abastecimento fica mais incerto e as decisões comerciais passam a ocorrer em um ambiente de forte volatilidade”, completou.
Apesar do cenário de alerta apontado por distribuidores e transformadores, a indústria química brasileira afirma que não há, no curto prazo, indicativos concretos de risco de desabastecimento no país. Em posicionamento oficial, a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) avaliou que, mesmo em um cenário extremo de queda nas importações, a indústria nacional dispõe de capacidade ociosa suficiente para suprir a demanda doméstica. “Não há dados que indiquem impactos reais sobre o abastecimento no Brasil, no curto prazo. A indústria química tem capacidade ociosa suficiente para suprir a demanda doméstica”, declarou o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro. A entidade também criticou análises que projetam colapso de suprimentos com base em preços pontuais de mercado (“spot”), destacando que o setor opera majoritariamente com contratos de médio prazo. “Análises alarmistas e equivocadas desconsideram que o setor químico trabalha com contratos e cláusulas de demanda firme, o que garante previsibilidade ao suprimento”, afirmou Cordeiro.
A Abiquim também chamou atenção para a elevada ociosidade do setor no Brasil, que alcançou média de 41% em 2025, o pior nível em 30 anos, e chega a 45% em intermediários para plásticos. Para André Passos Cordeiro, o desafio estrutural da indústria não está na falta de produto, mas na competitividade frente ao aumento das importações. “O desafio central da indústria química brasileira não é a falta de produto, mas a competitividade da produção nacional”, disse. Segundo ele, esse cenário reforça a necessidade de instrumentos de defesa comercial e políticas mais firmes para enfrentar práticas desleais e reduzir a pressão sobre as fábricas instaladas no país.
Apesar do cenário adverso, a ABIEF não defende mudanças estruturais imediatas na organização da cadeia, mas sim maior rigor na gestão. Segundo Berkovitz, “a ABIEF não propõe uma reforma explícita da dinâmica da cadeia nem um redesenho contratual ou organizacional entre os agentes. Aconselhamos o monitoramento constante do mercado, planejamento de abastecimento, análise profunda dos custos e decisões estratégicas baseadas em informação qualificada, sempre com a avaliação individual de cada empresa e observando a legislação.”
A posição revela uma abordagem pragmática diante da crise: em vez de reconfigurações amplas, a prioridade está na qualificação da tomada de decisão. Isso implica maior uso de inteligência de mercado, revisão contínua de estratégias de compra e uma postura mais analítica frente às oscilações de disponibilidade. A pressão sobre margens e crédito também exige respostas cautelosas por parte das empresas transformadoras. O presidente da ABIEF reforça a necessidade de decisões fundamentadas em dados e alerta contra reações precipitadas. “Fazemos um alerta às reações apressadas, com pouco embasamento em fatos, e que podem ampliar a exposição ao risco em um ambiente fortemente influenciado por fatores externos.”
Com visões distintas sobre o risco imediato de abastecimento, ADIRPLAST, ABIEF e ABIQUIM convergem, no entanto, ao reconhecer que o ambiente global impõe maior volatilidade e exige decisões mais estratégicas das empresas. Para Cecilia Vero, a preocupação central é a limitação de estoques e a pressão crescente sobre preços e oferta. Já Eduardo Berkovitz defende monitoramento constante e rigor analítico para evitar reações precipitadas. André Passos Cordeiro, por sua vez, sustenta que o Brasil tem capacidade produtiva para responder a choques externos, mas alerta que a competitividade do setor depende de medidas estruturais e de comércio exterior para garantir equilíbrio à indústria nacional.