
A maioria dos brasileiros demonstra apoio a iniciativas empresariais voltadas à sustentabilidade, mas ainda mantém hábitos de consumo que dificultam o avanço da economia circular no país. É o que mostra uma pesquisa inédita da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada nesta segunda-feira (1º), que identificou que 72% da população vê de forma positiva empresas que investem em práticas sustentáveis.
O levantamento, realizado pela Nexus com 2.019 pessoas em todas as regiões do Brasil, revela uma contradição entre discurso e prática. Embora a sustentabilidade seja valorizada pela maior parte dos entrevistados, 43% afirmam resistir à compra de produtos reciclados, independentemente do preço. Entre as razões mais citadas estão a preferência por produtos novos (34%) e a desconfiança em relação à durabilidade dos itens reciclados (30%).
Os resultados sugerem que a ampliação da economia circular depende não apenas da oferta de produtos sustentáveis, mas também da construção de uma relação de confiança entre consumidores e mercado. Para o superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo, ainda existem obstáculos que impedem a incorporação dessas práticas ao cotidiano. Segundo ele, “existe interesse da sociedade por práticas mais sustentáveis, mas ainda há barreiras relacionadas à informação, percepção de qualidade e acesso”. Nesse contexto, a percepção do consumidor surge como um fator decisivo para a consolidação de novos modelos de produção e consumo.
A pesquisa também aponta que o conceito de economia circular ainda é pouco conhecido pela população. Apenas 13% dos entrevistados afirmam ter conhecimento profundo sobre o tema, enquanto mais da metade dos brasileiros (56%) não percebe relação direta entre seus hábitos de consumo e as emissões de gases de efeito estufa. Os dados indicam que o debate sobre sustentabilidade tem ganhado espaço, mas ainda enfrenta dificuldades para se traduzir em mudanças concretas de comportamento.
Essa distância entre conscientização e prática aparece de forma ainda mais evidente quando se observa a logística reversa. Segundo o levantamento, 84% dos brasileiros não costumam devolver produtos como pilhas, baterias e equipamentos eletrônicos aos pontos de coleta apropriados. A falta de informação (33%) e a distância dos locais de recebimento (24%) figuram entre os principais entraves apontados pelos entrevistados.
Apesar dos desafios, algumas práticas associadas à circularidade já estão presentes na rotina da população. Cerca de 58% dos brasileiros afirmam consertar produtos antes de substituí-los. No entanto, a motivação predominante ainda está ligada à economia doméstica: metade dos entrevistados que adotam esse hábito afirma fazê-lo para economizar dinheiro, enquanto apenas 10% relacionam a decisão à preocupação ambiental.
Na avaliação de Davi Bomtempo, o cenário demonstra a necessidade de ampliar a conscientização da sociedade e criar condições mais favoráveis para a adoção de modelos sustentáveis. “Temos espaço para ampliar a conscientização da sociedade sobre circularidade e fortalecer políticas públicas capazes de incentivar modelos mais sustentáveis de produção e consumo”, afirma. Para ele, a economia circular depende de uma transformação que envolve informação, infraestrutura, ambiente regulatório e o engajamento de toda a cadeia produtiva.
A CNI avalia que esse contexto reforça a importância da aprovação do Projeto de Lei 1874/2022, que cria a Política Nacional de Economia Circular (PNEC). A entidade defende que a proposta pode contribuir para estimular investimentos, ampliar a competitividade da indústria brasileira e incentivar práticas sustentáveis de consumo.
Os resultados da pesquisa serão apresentados durante o evento “Liderança Empresarial pelo Futuro do Clima | COP31”, realizado nesta segunda-feira, dia primeiro de junho, na sede da FIRJAN, no Rio de Janeiro. O encontro reúne representantes do setor produtivo, governo e instituições financeiras para discutir prioridades e propostas empresariais voltadas à agenda climática global e à preparação para a COP31, marcada para novembro, na Turquia.