
Nova cobrança de 12,5% se soma à tarifa de 25% e pode elevar a sobretaxa para 37,5% em parte dos produtos brasileiros
A entrada em vigor de uma nova tarifa de 12,5% imposta pelos Estados Unidos deve ampliar os impactos sobre as exportações do Rio Grande do Sul. Segundo levantamento do Sistema FIERGS, 87,2% das vendas gaúchas ao mercado norte americano estarão sujeitas a algum tipo de taxação adicional. A nova cobrança foi aplicada pelo governo do presidente Donald Trump com base em uma investigação conduzida pelo Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos, o USTR, no âmbito da Seção 301. A medida se soma à tarifa de 25% anunciada anteriormente e pode elevar a sobretaxa incidente sobre determinados produtos para 37,5%.
Entre os segmentos que podem ser afetados estão calçados, madeira, tabaco, máquinas e equipamentos e produtos de metais. A indústria gaúcha também enfrenta tarifas específicas previstas na Seção 232, que abrangem setores como aço, alumínio e seus derivados. O presidente do Sistema FIERGS, Claudio Bier, defende a intensificação das negociações entre o governo brasileiro e as autoridades norte americanas para tentar reverter as medidas e ampliar o apoio aos setores atingidos. Segundo Bier, a elevação das tarifas representa um risco para a competitividade da indústria gaúcha no mercado dos Estados Unidos. O dirigente afirma que os setores afetados empregam milhares de trabalhadores e possuem forte participação nas exportações do Estado.
A nova tarifa é resultado de uma investigação do USTR que apontou, segundo o governo norte americano, falhas na proibição e na fiscalização de mercadorias produzidas com trabalho forçado em diferentes economias. Ao todo, 60 economias foram classificadas no processo. Para 41 delas, entre as quais está o Brasil, foi estabelecida uma tarifa adicional de 12,5%. Outras 19 economias, que possuem legislação sobre o tema, mas foram consideradas insuficientes na fiscalização, ficaram sujeitas a uma tarifa de 10%.
Com a nova medida, os produtos atingidos pela tarifa da Seção 301 representam 50,4% das exportações gaúchas destinadas aos Estados Unidos, o equivalente a US$ 830,1 milhões. Desse total, 92,7%, ou US$ 769,6 milhões, estarão sujeitos ao efeito acumulado das tarifas, resultando em uma sobretaxa de 37,5%. A mudança também amplia a incidência sobre alguns produtos que haviam sido beneficiados pela lista de exceções da tarifa de 25%. Entre eles estão couro, peles e pescados, que passam agora a ser alcançados pela nova cobrança de 12,5%.
Além das tarifas previstas na Seção 301, parte das exportações gaúchas está sujeita às medidas setoriais da Seção 232. A taxação sobre aço, alumínio e produtos derivados alcança 36,9% dos embarques do Rio Grande do Sul para os Estados Unidos. Diante desse cenário, a indústria gaúcha avalia que a combinação das diferentes medidas tarifárias aumenta a pressão sobre as empresas exportadoras e pode reduzir a competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte americano. O Sistema FIERGS defende a continuidade das negociações diplomáticas e a adoção de medidas de apoio às empresas dos setores mais expostos às novas tarifas.
Para gestor de investimentos, tarifaço tem motivação política e geopolítica e pode elevar percepção de risco sobre o Brasil entre investidores internacionais
Para Marcelo Cabral, fundador da Stratton Capital, medidas adotadas pelo governo Trump refletem a disputa geopolítica com a China e podem ampliar a percepção de risco dos investidores em relação ao Brasil. "Os investidores americanos sabem perfeitamente que as tarifas que estão sendo impostas sobre o Brasil são um instrumento de pressão política que tem pouco a ver com o racional econômico, até porque os Estados Unidos têm um superavit comercial significativo com o Brasil", afirma o gestor.
A nova rodada de tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil tem uma motivação predominantemente política e geopolítica, na avaliação de Marcelo Cabral, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital, com sede em Nova York. Para o especialista, as medidas fazem parte de um contexto mais amplo de disputa pela influência econômica global e estariam relacionadas à aproximação comercial do Brasil com a China.
Na avaliação de Cabral, os investidores norte americanos entendem que as tarifas funcionam como instrumento de pressão política e não apenas como uma medida de proteção econômica. O gestor observa que os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil, o que, em sua análise, enfraqueceria a justificativa estritamente econômica para a adoção das novas barreiras.
O especialista considera que a política tarifária do governo de Donald Trump também busca sinalizar a outros países os possíveis custos de uma aproximação mais estreita com a China. Nesse contexto, o Brasil estaria entre os países que despertam atenção em Washington devido ao aumento da integração econômica com o mercado chinês e às discussões sobre a redução da dependência do dólar no comércio internacional.
Para Cabral, uma eventual resposta brasileira, incluindo a possibilidade de aplicação da Lei de Reciprocidade e medidas relacionadas à propriedade intelectual, ainda não estaria totalmente refletida nos preços dos ativos brasileiros negociados no exterior. Na avaliação do gestor, uma eventual escalada das tensões entre os dois países poderia levar a uma reprecificação dos ativos e aumentar a percepção de risco associada ao Brasil.
O impacto, segundo ele, não estaria restrito aos efeitos diretos das tarifas sobre o comércio bilateral. A principal preocupação seria a possibilidade de o chamado risco Brasil passar a incorporar de maneira mais permanente um componente geopolítico, além dos fatores tradicionalmente considerados pelos investidores, como inflação, juros, contas públicas e crescimento econômico.
Cabral também avalia que o impacto político interno da política tarifária nos Estados Unidos tende a ser limitado, uma vez que o governo norte americano teria preservado da sobretaxação alguns produtos considerados estratégicos ou de difícil substituição pela produção doméstica. Entre os exemplos citados estão café, carne bovina, petróleo bruto e componentes aeroespaciais produzidos pela Embraer.
A diferença de escala das relações comerciais entre Estados Unidos, Brasil e China também é apontada pelo gestor como um elemento relevante para compreender a estratégia norte americana. Segundo ele, os Estados Unidos importam cerca de US$ 290 bilhões em produtos chineses, enquanto as compras provenientes do Brasil somam aproximadamente US$ 45 bilhões. Ainda assim, a tarifa média aplicada aos produtos chineses teria passado de 10,9% para 29,6%, em um movimento que evidencia, segundo Cabral, a dimensão estratégica da política comercial adotada por Washington.
O momento escolhido para a aplicação das novas tarifas também é considerado relevante pelo gestor. O anúncio ocorreu às vésperas do ciclo eleitoral brasileiro de 2026, circunstância que, na avaliação dele, reforça a interpretação de que as medidas podem ser utilizadas como mecanismo de pressão política sobre o governo brasileiro.
Para Cabral, uma maior aproximação comercial do Brasil com países asiáticos não representa necessariamente um agravamento das relações com os Estados Unidos, já que nações como Japão, Coreia do Sul e Taiwan mantêm relações de aliança com Washington. O principal ponto de atenção, segundo ele, está na possibilidade de ampliação da influência econômica e política da China sobre o Brasil.
Nesse cenário, o gestor avalia que o principal efeito das tarifas sobre os mercados pode estar menos relacionado ao impacto imediato sobre o fluxo comercial e mais à percepção de que as relações geopolíticas passaram a integrar de forma mais relevante a avaliação de risco dos ativos brasileiros. A eventual permanência desse componente, segundo Cabral, pode influenciar a percepção de investidores internacionais sobre o país e elevar o prêmio de risco associado ao Brasil.