
CADERNO ESTRATÉGICO CAP.M | em parceria com Plástico Sul América
Especial Fórum de Economia Circular e Competitividade · 3 de 4
Por Marcelo Mason | CAP.M Consulting
O petróleo caiu, o virgem caiu junto, e o mercado brasileiro fez exatamente o que a circularidade não deveria permitir: abandonou o reciclado no instante em que ficou mais barato comprar o contrário
Há duas semanas, ao fechar a segunda coluna desta série preparatória para o Fórum de julho, deixei uma ideia solta de propósito. Disse que existe uma fonte de matéria-prima própria que é, no fundo, a mais estratégica de todas num horizonte de dez anos. O material reciclado. Insumo doméstico por definição, imune ao câmbio do petróleo, imune ao Estreito de Ormuz, a forma mais avançada da previsibilidade que toda aquela coluna defendia.
Duas semanas depois, o próprio mercado testou essa tese. E o resultado do teste é desconfortável o suficiente para merecer uma coluna inteira.
O que mudou desde a última coluna
Em 15 de junho, Estados Unidos e Irã assinaram um memorando de entendimento para encerrar a guerra que começou no fim de fevereiro. O acordo previa a reabertura do Estreito de Ormuz sem pedágio por sessenta dias, enquanto negociações de mais longo prazo avançam com mediação de Omã. O mercado reagiu na hora. O Brent, que havia chegado a superar US$ 117 no pico do conflito, caiu para a faixa de US$ 73 a 82 em questão de dias. Analistas descreveram o movimento como o maior recuo em sessões consecutivas desde o início da crise. O Goldman Sachs cortou sua projeção de Brent para US$ 80 no quarto trimestre deste ano e para uma média de US$ 75 em 2027.
Há uma ressalva importante que qualquer comprador de resina deveria guardar. Especialistas em mercado consultados por veículos internacionais foram categóricos ao dizer que essa é recuperação de preço, não necessariamente recuperação de fundamento. A reabertura física do estreito é outra coisa, diferente da reabertura comercial. Mais de cem navios ainda aguardavam para atravessar o Golfo na semana seguinte ao acordo, seguradoras ainda reavaliam prêmio de risco de guerra, e o mercado futuro de Brent já entrou em pânico com o contrato de curto prazo mais barato que o de longo prazo, sinal técnico de que o mercado precifica excesso de oferta à frente, não escassez.
Mesmo com essa ressalva, o efeito psicológico foi imediato. E foi justamente esse efeito que expôs a fragilidade que esta coluna quer discutir.
O reciclado caiu junto, e não devia
O ICIS, uma das referências internacionais mais respeitadas em inteligência de mercado petroquímico, publicou nas últimas semanas um retrato preciso do que aconteceu no segmento de reciclados nos Estados Unidos com padrão que se replica com intensidade variável em outras geografias, inclusive na leitura que fazemos para o mercado brasileiro.
Em junho, o mercado de polietileno reciclado (rHDPE) e de polipropileno reciclado (rPP) amoleceu. Um editor sênior do ICIS descreveu o movimento de forma direta: a melhora na disponibilidade de matéria-prima e a queda no preço do virgem pesaram no sentimento do mercado de reciclado. O preço do fardo (bale) de HDPE natural, insumo básico para reciclagem, caiu quase 40% frente ao pico de meados de maio. O pellet de rHDPE registrou sua primeira queda desde setembro do ano passado. No polipropileno o fardo caiu 30% na costa leste americana e 15% na costa oeste na comparação com maio.
A frase mais reveladora de todo o relatório porém não é sobre preço. É sobre comportamento. Segundo o próprio ICIS, mesmo com demanda ainda sustentada por compromissos de marcas com conteúdo reciclado pós-consumo, os compradores adotaram uma postura cautelosade esperar para ver na expectativa de novas quedas de preço.
Traduzindo para a realidade da nossa cadeia: no instante em que o petróleo ficou mais barato e o virgem acompanhou, o comprador de reciclado parou de comprar reciclado. Não porque o reciclado piorou. Porque o virgem melhorou na comparação, e ninguém quer pagar caro por algo que pode custar menos amanhã.
A ironia que a data escancara
Aqui está o ponto que transforma um movimento técnico de mercado em uma questão estratégica para o setor inteiro. O ICIS na mesma leva de análises projeta que o Decreto 12.688/2025, a regulamentação brasileira de conteúdo reciclado pós-consumo, vai gerar demanda teórica de aproximadamente 700 mil toneladas de PCR já em 2026, subindo para 1,7 milhão de toneladas até 2040.
Ou seja: no exato momento em que a legislação brasileira começa a exigir mais reciclado, na prática o mercado está empurrando na direção oposta, porque o petróleo caiu e arrastou o virgem e o virgem barato tornou o reciclado caro na comparação relativa. A régua legal sobe. O incentivo econômico de curto prazo desce. E é essa tesoura, entre obrigação regulatória crescente e atratividade de mercado momentaneamente decrescente, que vai definir se a circularidade brasileira em PE e PP vira estrutura permanente ou modismo de ciclo alto de commodity.
Não é a primeira vez que esse padrão se repete e não vai ser a última. Um alerta publicado ainda durante o auge da crise de Ormuz, quando o virgem estava caro e o reciclado parecia finalmente competitivo já continha o aviso que se confirmou agora. Analistas do próprio ICIS consultados por publicações especializadas europeias disseram que qualquer ganho de competitividade do reciclado durante um choque de oferta do virgem tende a ser temporário, limitado à duração do conflito e ao período de reequilíbrio subsequente, após o qual o excesso de capacidade global de virgem tende a reafirmar pressão de preço para baixo. Ler isso hoje com o benefício de saber o que aconteceu depois, é quase profético. E é exatamente o que se materializou.
Por que hedge de custo é a lógica errada
Existe uma forma de “pensar sobre PCR” por mais bem intencionada que seja, carrega uma falha estrutural. É pensar reciclado como hedge contra o preço do virgem. A lógica parece impecável à primeira vista: quando o petróleo sobe, o reciclado vira alternativa mais barata, então investir em reciclado protege a operação da volatilidade do barril.
E esta é a lógica que sempre regeu o mercado brasileiro, todo reciclador sabe disso.
O problema é que essa lógica só funciona enquanto o virgem estiver caro. No momento em que o virgem cai (e ele sempre cai em algum momento do ciclo, ainda mais se o ciclo for longo como o pré-guerra) o mesmo raciocínio que motivou a substituição para reciclado motiva a substituição de volta para virgem. Reciclado que existe na cadeia apenas como resposta tática a um pico de preço desaparece assim que o pico passa. Foi isso que o mercado americano de rHDPE e rPP acabou de demonstrar com dados concretos em tempo real nas últimas semanas.
A circularidade que sobrevive ao ciclo de commodity é outra. É a que se estrutura como cadeia de relacionamento, com contrato de médio e longo prazo entre marca, transformador e reciclador, baseada em atributos que o virgem, por mais barato que fique, nunca vai oferecer. Rastreabilidade certificada. Redução de pegada de carbono documentada e auditável. Atendimento a exigência regulatória que não desaparece quando o petróleo cai, porque o Decreto 12.688/2025 não tem cláusula de suspensão para trimestre de Brent baixo. Segurança de suprimento que não depende de embarcação atravessando o Golfo Pérsico.
Quem constrói a cadeia pensando nesses atributos estruturais atravessa o ciclo de preço inteiro sem soltar a mão do reciclador parceiro. Quem constrói pensando em arbitragem contra o preço do petróleo vai inevitavelmente soltar essa mão toda vez que o barril cair. E o barril, história recente prova, cai rápido e sem aviso.
O painel que enfrenta essa pergunta de frente
É exatamente esse o tema do painel "Redesenhando a Circularidade na Cadeia Produtiva", no segundo dia do Fórum de Economia Circular e Competitividade, dia 15 de julho em Porto Alegre. O painel reúne o Cesar Eduardo, CEO do Grupo Activas, a Barbara Maldaner, que atua em desenvolvimento de negócios em economia circular na Braskem, e o João Zeni, diretor de sustentabilidade para a América Latina na Electrolux, além da participação da Rede pela Circularidade do Plástico.
A pauta do painel é direta: alinhamento entre indústria e marcas para construir modelos colaborativos que escalem circularidade de verdade, e as decisões interdependentes que vão da matéria-prima até o consumidor final. É, em essência, a discussão sobre como sair da lógica de hedge tático e entrar na lógica de cadeia estrutural. Como a Activas, que atua na ponta de com a transformação e supply chain, a Braskem, que está do lado da oferta de resina e cada vez mais também do lado da oferta de circularidade, e a Electrolux, que representa a demanda de uma marca que precisa cumprir metas de conteúdo reciclado independentemente do preço do barril naquele trimestre, conseguem desenhar uma relação que não quebra no primeiro ciclo de baixa do petróleo.
Essa pergunta feita há um mês seria teórica. Feita hoje, com o rHDPE e o rPP caindo diante dos nossos olhos por causa exatamente do mecanismo que esta coluna descreve, ela é urgente.
A ponte para a última semana
Esta é a terceira de quatro colunas que preparam o terreno para o Fórum. A primeira tratou da reconfiguração geopolítica que devolveu volatilidade ao mundo. A segunda argumentou que competitividade nesse cenário se mede em previsibilidade e que matéria-prima própria, incluindo o reciclado, é o caminho para reconstruí-la. Esta terceira mostrou, com dado fresco de mercado, o que acontece quando a circularidade é construída sobre a lógica errada, a de hedge contra petróleo caro, e não sobre a lógica certa, a de cadeia estrutural que resiste ao ciclo.
A quarta e última coluna, na semana que vem vai perguntar o que o Brasil, de fato, já construiu. Vai olhar o estado real da economia circular no país, o gap entre compromisso público e execução na cadeia produtiva, e o papel que as políticas públicas, incluindo o próprio Decreto 12.688/2025, precisam cumprir para que a circularidade brasileira não dependa de o barril continuar caro.
Porque se depender o mercado já provou em tempo recorde o que acontece quando ele para de estar.
Nos vemos em Porto Alegre.

As inscrições para o 5º Fórum de Economia Circular e Competitividade estão abertas pelo Sympla. O evento acontece nos dias 14 e 15 de julho, em Porto Alegre.
Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, especializada em estratégia, marketing e ESG para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.