
Por João Luiz Zuñeda, Sócio Fundador MaxiQuim.
Se os Estados Unidos caminham para um cenário de gás natural mais caro, a Argentina pode estar entrando no movimento inverso. O rápido desenvolvimento de Vaca Muerta está ampliando a oferta de gás natural de baixo custo e atraindo investimentos em infraestrutura, gasodutos e projetos de exportação de GNL. O desafio passa a ser transformar essa abundância de recursos em uma plataforma de industrialização regional.
Nesse contexto, Brasil e Argentina possuem uma oportunidade que dificilmente existirá novamente nas próximas décadas. Enquanto os custos energéticos americanos tendem a convergir para níveis próximos de US$ 5/MMBtu no longo prazo, contratos firmes de fornecimento de gás argentino poderão oferecer preços competitivos, previsibilidade e segurança de abastecimento para consumidores industriais da região.
Essa diferença pode alterar a geografia dos investimentos petroquímicos. O polietileno, por exemplo, é um dos produtos mais sensíveis ao custo da matéria-prima. O etano derivado do gás natural responde por uma parcela significativa do custo de produção das resinas. Quanto menor o custo do gás, maior tende a ser a competitividade internacional das plantas petroquímicas.
Não por acaso, a revolução do shale gas levou os Estados Unidos a investir dezenas de bilhões de dólares em novas unidades de eteno e polietileno ao longo da última década. Agora, parte dessa lógica pode começar a migrar para regiões que consigam combinar gás competitivo, estabilidade regulatória, infraestrutura logística e proximidade dos mercados consumidores.
Brasil e Argentina reúnem diversos desses atributos. A Argentina possui uma das maiores reservas mundiais de gás não convencional. O Brasil concentra o maior mercado consumidor de resinas da América Latina, uma base petroquímica consolidada, infraestrutura industrial instalada e grande demanda por polietilenos. A integração entre os dois países pode criar uma cadeia regional altamente competitiva, reduzindo importações, fortalecendo a indústria transformadora e atraindo uma nova geração de investimentos petroquímicos.
Mas existe um fator estratégico que não pode ser ignorado: a Venezuela está na espreita. O país possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e uma das maiores reservas de gás natural da América do Sul, além de uma infraestrutura petroquímica construída ao longo de décadas. Embora hoje opere muito abaixo de seu potencial, uma eventual normalização política e econômica, acompanhada pela volta dos investimentos internacionais, poderá recolocar a Venezuela na disputa por grandes projetos de gás, eteno e polietileno. Em outras palavras, a janela de oportunidade para Brasil e Argentina liderarem um novo ciclo petroquímico regional não permanecerá aberta indefinidamente.
A próxima vantagem competitiva da América do Sul não será determinada apenas pelo tamanho de suas reservas de gás natural. Ela dependerá da capacidade de transformar esse recurso em uma estratégia industrial integrada. Quem conseguir converter gás competitivo em etano, eteno, polietileno, fertilizantes, energia, empregos e exportações assumirá uma posição de destaque na nova geografia da indústria química global. Se os Estados Unidos estão entrando em uma nova fase de custos energéticos, a América do Sul tem diante de si uma oportunidade histórica para construir seu próprio ciclo de industrialização. A questão é quem conseguirá aproveitá-la primeiro.

Por João Luiz Zuñeda, Sócio Fundador MaxiQuim.