
CADERNO ESTRATÉGICO CAP.M | em parceria com Plástico Sul América
Por Marcelo Mason | CAP.M Consulting
Teve um momento no painel de reconfiguração geopolítica e os reflexos na economia, ainda no primeiro dia do 5º. Fórum de Economia Circular e Competitividade,e eu queria ter gravado só para tocar para cliente que ainda me pergunta por que a Braskem "não segura o preço". O Marcos Ferreira do Nascimento (Economista Chefe na ABIPLAST), soltou um exemplo que parou a plateia por uns bons segundos.
Durante décadas, comprar resina no Brasil era simples de entender, mesmo sem entender nada de petroquímica. O produtor nacional precificava, e o cliente que quisesse fugir daquele preço tinha uma alternativa só: importar. O cálculo dessa importação tem até nome técnico, preço de paridade de importação, PPI para quem é do ramo. Preço lá fora, mais frete, mais seguro, mais imposto de internalização. Bastava saber o câmbio do dia, ficar de olho no verão americano e europeu (que aquece demanda lá fora) e torcer para não ter furacão fechando refinaria no Golfo. Trabalhoso, mas previsível.
Foi nesse mundo que nasceu a ideia de que todo problema de custo da transformação no Brasil é culpa do produtor local. Fazia sentido na época. Ele tinha o mercado praticamente inteiro na mão.
Não tem mais.
Hoje a Braskem disputa espaço de verdade, principalmente em polietileno, onde a Dow com sua planta em Bahía Blanca sempre foi concorrente forte e o importado ganhou terreno ano após ano. O antidumping de US$ 199 a tonelada que o governo aplicou sobre resina americana, em vigor desde março, é prova disso. Ninguém aplica antidumping contra quem não ameaça ninguém.
Só que tem gente na cadeia, gente boa, gente que entende de resina, ainda tratando o produtor nacional como se fosse 1995. E é aqui que o exemplo do Marcos entra.
Ele contou meio de passagem quase como observação lateral, que os Estados Unidos fecharam acordo comercial com a União Europeia. Isso é fato, está em vigor, virou lei europeia em junho. A UE tirou tarifa de bem industrial americano, plástico incluso, em troca de teto de 15% para o que ela manda para os EUA. Beleza, isso é notícia velha para quem acompanha jornal.
O que pouca gente amarrou é que a União Europeia também fechou acordo com o Mercosul. Assinado em janeiro, rodando desde maio e rafiticado pelo Senado. Química está na lista de setores beneficiados.
Agora põe as duas coisas lado a lado. Resina e produtos plásticos acabados americanos entram na Europa sem tarifa. E resina e produtos acabados que saem da Europa, entram no Brasil com condição preferencial. O Marcos não estava especulando. Ele estava descrevendo um caminho que já existe no papel e está ratificado.
Antidumping mira a origem declarada da mercadoria. Não mira o trajeto que ela faz até chegar aqui. Se o produto sai dos Estados Unidos, passa pela Europa, ganha um selo novo no caminho, ela pode chegar no Brasil sem acionar a mesma barreira que travou a entrada direta. Não é fraude. É engenharia de rota, dentro da lei, e a ABIPLAST já está de olho.
Você devia estar também, se compra ou vende resina ou produtos transformados para viver.
Uma coisa que eu penso sobre isso, e talvez discorde de gente que respeito: não dá para ficar chamando tarifa, antidumping e acordo bilateral de arma suja do fornecedor. O Brasil usou antidumping quando precisou. Vai precisar usar de novo. A ferramenta que hoje incomoda pode ser exatamente a que o país vai precisar puxar amanhã, para proteger alguma indústria nascente ou para negociar entrada em mercado que hoje está fechado. Reclamar da regra do jogo enquanto ela prejudica, e querer usar a mesma regra quando ela ajudar, não combina.
Teve outra coisa que ficou martelando na minha cabeça desde os dois painéis que moderei. Todo mundo fala em monitorar petróleo, nafta, Ormuz aberto ou fechado, como se isso bastasse para prever preço de resina. Não basta mais. O jogo é mais largo que isso, e o exemplo do Marcos prova exatamente essa distância.
O que ficou mais claro para mim em Porto Alegre, ouvindo os outros painéis também, não só os dois que moderei, foi que a indústria brasileira de plástico segue fragmentada demais para o tamanho do desafio. Cada empresa monitorando sua própria fatia, sem conversa, sem escala conjunta, sem investimento coordenado em tecnologia. Isso é convite para apanhar isolado toda vez que o tabuleiro lá fora se mexer.
A gente não vai decidir o que Washington, Bruxelas e o Mercosul assinam entre si. Isso está fora do nosso alcance, e tudo bem. Mas dá para decidir se entra nesse jogo cada um por si, ou remando junto.

Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, especializada em estratégia, marketing e ESG para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.