
A reciclagem de plásticos ocupa um papel cada vez mais estratégico na construção de uma economia circular. Mais do que ampliar os índices de recuperação de materiais, o desafio está em garantir qualidade, produtividade, viabilidade econômica e capacidade de reinserir os resíduos reciclados na cadeia produtiva. Foi a partir dessa necessidade de aprofundar a discussão sobre os aspectos técnicos que envolvem a reciclagem de plásticos que a Plástico Sul América criou o Encontro Técnico de Reciclagem e Sustentabilidade.
Realizado no dia 25 de agosto, durante a Interplast 2026, em Joinville (SC), o encontro reuniu recicladores, transformadores, fornecedores de equipamentos e tecnologias e representantes da indústria para uma manhã dedicada à troca de conhecimento, apresentação de soluções e discussão dos desafios que ainda precisam ser superados para fortalecer a circularidade dos materiais plásticos.
A proposta foi ir além do debate conceitual sobre sustentabilidade e economia circular e colocar em pauta questões que fazem parte do dia a dia da indústria: como melhorar a qualidade do PCR? Como aumentar a eficiência dos processos? Quais tecnologias podem reduzir perdas e ampliar a produtividade? Como agregar valor aos materiais reciclados? E de que maneira a digitalização, a rastreabilidade e o acesso a dados podem contribuir para uma cadeia mais eficiente e competitiva?
Um olhar sobre a reciclagem no Brasil
A programação começou com um panorama da reciclagem e da economia circular no Brasil e com a apresentação do case da Rede pela Circularidade do Plástico descrito por Juliana Seidel. O momento trouxe uma visão sobre a importância das conexões desenvolvidas pela rede e os desafios para ampliar a recuperação e a reinserção dos materiais plásticos na cadeia produtiva.
A abertura ajudou a estabelecer o contexto para as discussões seguintes: a circularidade depende de uma cadeia estruturada, capaz de conectar disponibilidade de resíduos, tecnologias de processamento, qualidade dos materiais reciclados e demanda por esses materiais no mercado.
Tecnologia e eficiência no processamento
No eixo Tecnologia, Equipamentos e Cases de Sucesso, a discussão avançou para dentro da operação industrial.
O painel da Leistritz, com Marcelo Albernaz e Roberto Mateucci e mediação de Manoel Lisboa, abordou a extrusão de alta performance para reciclagem, mostrando tecnologias destinadas ao processamento de plásticos reciclados, à produção de compostos e PCR de maior qualidade e ao aumento da eficiência operacional. Cases de aplicação ajudaram a aproximar a tecnologia dos desafios encontrados na prática pelos recicladores e transformadores.
Na sequência, a FIMIC, representada por Omar Ruesga Pelayo e Luiz Henrique Hartmann, colocou em discussão um dos pontos determinantes para a qualidade do material reciclado: a filtragem.
A apresentação mostrou como os sistemas de filtragem influenciam a qualidade do pellet, a produtividade e a estabilidade do processo, além de abordar indicadores como tempo de atividade e retorno sobre o investimento. A discussão reforçou que a qualidade do PCR começa muito antes de sua aplicação final e depende diretamente da eficiência das etapas de processamento.
Aditivos para valorizar o PCR
Outro aspecto fundamental para ampliar as possibilidades de uso dos materiais reciclados é a capacidade de recuperar ou melhorar suas propriedades.
Esse foi o foco da apresentação de Silmara Neves, da IQX, sobre aditivos para valorização de materiais reciclados. A discussão mostrou como essas soluções podem contribuir para melhorar propriedades e desempenho do PCR e ampliar suas possibilidades de aplicação.
Mais do que uma questão de formulação, o uso de aditivos aparece como uma ferramenta para aproximar os materiais reciclados das exigências técnicas dos transformadores e dos produtos finais, contribuindo para que o reciclado conquiste aplicações de maior valor agregado.
Economia circular na prática
A programação também trouxe a perspectiva de quem atua diretamente na implementação de soluções circulares.
Na apresentação “Da Circularidade aos Resultados: Experiências Reais e Perspectivas de Mercado”, Juliana Rosa, da Braskem, compartilhou experiências e cases relacionados à implementação de soluções circulares, os resultados alcançados e as oportunidades para o mercado de reciclados.
O tema colocou em evidência uma questão essencial para o avanço da economia circular: transformar iniciativas e compromissos em resultados concretos, criando condições para que os materiais reciclados tenham mercado, escala e competitividade.
Digitalização, rastreabilidade e competitividade
A transformação digital também ganhou espaço no encontro. Rodrigo Fabian Gálvez, da BALQ Tecnologia, apresentou como a digitalização pode fortalecer a cadeia de reciclagem por meio da integração de informações, rastreabilidade, documentação e controle de qualidade.
A utilização de dados permite acompanhar diferentes etapas da cadeia produtiva e apoiar decisões mais precisas, contribuindo para eficiência, transparência e competitividade. Nesse contexto, sustentabilidade e tecnologia deixam de ser agendas separadas e passam a atuar de forma integrada.
PCR e novas oportunidades
Encerrando a programação técnica, Cauê Andres, da Greencycle, abordou a inovação circular com resinas PCR, trazendo a perspectiva das aplicações e das oportunidades relacionadas aos materiais reciclados.
O encerramento reforçou a ideia central do encontro: avançar na reciclagem significa desenvolver uma cadeia capaz de transformar resíduos em matérias-primas com qualidade, regularidade, desempenho e valor econômico.
Conhecimento como parte da circularidade
Ao reunir diferentes elos da cadeia em torno de uma programação essencialmente técnica, o Encontro Técnico de Reciclagem e Sustentabilidade buscou contribuir para uma discussão mais prática sobre os caminhos da economia circular.
A reciclagem é um dos braços mais importantes da economia circular dos plásticos, mas seu avanço depende de conhecimento, tecnologia, investimentos, eficiência e articulação entre os diferentes participantes da cadeia.
Foi justamente para ampliar esse espaço de diálogo e aproximar conhecimento técnico, tecnologia e mercado que nasceu o encontro. A proposta da Plástico Sul América é que essa discussão continue, acompanhando a evolução das tecnologias, das demandas da indústria e dos desafios que ainda precisam ser enfrentados para que mais materiais plásticos possam permanecer em circulação, com qualidade e competitividade.

