Encontrar Artigos

O QUE OS CORREDORES DA INTERPLAST CONTAM SOBRE A INDÚSTRIA BRASILEIRA

Toda feira setorial é uma fotografia. Não da intenção de discurso de ninguém, mas do  orçamento de marketing de todo mundo. 

Passei a semana na Interplast, em Joinville. Não é a primeira vez. E depois de  acompanhar várias edições, aprendi a ler esse tipo de evento não pelo que se fala nos  painéis, mas pelo que se vê nos estandes. 

Dessa vez, os corredores falaram mais alto que qualquer palestra. A presença que cresce. 

A presença chinesa e asiática na feira estava, mais uma vez, muito forte. Estandes  grandes, bem construídos, com equipe técnica destacada e continuidade de  investimento evento após evento. 

Isso não é acidente de calendário. É estratégia de médio prazo sendo executada com  paciência, exatamente enquanto parte da indústria nacional reduz orçamento de  eventos e exposição de marca. 

A ausência que incomoda. 

Do lado oposto, percebi menos recicladores com estande na feira. Menos do que em  edições anteriores. Isso não é detalhe meramente cosmético, é um termômetro de  competitividade e de caixa. Quando uma cadeia inteira reduz presença em evento de  vitrine, geralmente é porque o orçamento para isso é o primeiro a ser cortado, não o  último. 

Reciclagem não desapareceu da conversa nacional, pelo contrário, o Decreto 12.688  segue impondo metas de conteúdo reciclado. Mas o orçamento para feiras não segue  lei nenhuma. Segue caixa. E caixa apertado aparece primeiro no espaço físico ocupado  no pavilhão. 

A sala que ficou lotada era da PetroChina. 

Entre os grandes nomes com presença estruturada, um se destacou de forma pouco  sutil: a única petroquímica com estande e sala de reuniões dedicada era a PetroChina.  Não é força de expressão. É sinal explícito de quem está disposto a jogar pesado no  mercado brasileiro de resinas termoplásticas. 

Ao lado, outra sala de reuniões lotada: Vinmar, uma das maiores trading companies  operando no Brasil. Somando a isso, presença relevante de Tricon, Flamel, APTA e  outras importantes empresas que vivem de ofertar produto importado competitivo  para o mercado nacional. 

E isso acontece mesmo com a alíquota de importação de resinas mantida em 20% por  mais 12 meses, conforme Deliberações da 240ª Reunião Ordinária do Comitê-Executivo 

de Gestão (Gecex), e com direitos antidumping definitivos aplicados contra polietileno  do Canadá e dos Estados Unidos, além de investigação em andamento sobre PET da  Malásia e do Vietnã. Ou seja: a dupla camada de proteção tarifária existe, está ativa, e  mesmo assim o jogo comercial do importado segue avançando, com sala cheia e  estande de peso. 

A ausência que fecha o quadro 

Anos atrás, os estandes lotados na feira eram Braskem, Innova, Unigel. Hoje, essas  empresas sequer têm espaço no pavilhão. 

Não é julgamento sobre gestão, estratégia ou mérito de cada companhia. É  constatação de posição competitiva, visível a olho nu para qualquer profissional que  caminhe pelos corredores com atenção. 

A indústria petroquímica brasileira não consegue competir na régua atual de custo e  isso fica claro até no espaço físico ocupado numa feira setorial. 

Não estou fazendo defesa da indústria nacional, tampouco condenando o mercado  externo. Isso é leitura de fato, sem viés de torcida. A vida muda. Os negócios mudam.  E a direção de indústria pode mudar e ter um rumo sem volta. 

A pergunta que fica, depois de uma simples caminhada pelos pavilhões de Joinville, é  desconfortável e honesta: 

O Brasil vai se tornar precocemente um país de serviços, importador de bens  industriais? Ou existe ainda caminho de retomada de competitividade real para a  indústria química e do plástico? 

A resposta não está em nenhum painel de congresso. Está, talvez, no próximo layout  de estandes da Interplast 2028. 

Maurício Jaroski é engenheiro químico, sócio-executivo e diretor da área de Economia  Circular no Grupo MaxiQuim. Acompanha o mercado de resinas plásticas virgens e  recicladas há mais de uma década, com dados publicados mensalmente pelo Indicador  MXQ, referência de precificação para contratos em toda a cadeia de reciclagem  nacional.