
Metas obrigatórias de conteúdo reciclado e logística reversa ampliam a demanda por PCR e pressionam a indústria a investir em rastreabilidade, qualidade e capacidade de processamento
A adoção de metas obrigatórias para reciclagem e conteúdo reciclado está mudando as condições de operação da indústria de plásticos na América Latina. Brasil, Chile e Colômbia avançaram em diferentes frentes regulatórias, criando mecanismos que ampliam a responsabilidade de fabricantes e importadores sobre os materiais colocados no mercado e, ao mesmo tempo, aumentam a necessidade de reincorporar resíduos à cadeia produtiva.
No Brasil, o Decreto nº 12.688/2025 regulamentou a logística reversa de embalagens plásticas e estabeleceu duas metas centrais: o índice de recuperação das embalagens e o índice de conteúdo reciclado. A partir de abril de 2026, o percentual mínimo de material reciclado previsto na norma é de 22%. O descumprimento pode resultar em multas de até R$ 50 milhões, conforme o material de referência.
Mais do que estabelecer uma obrigação de destinação, esse tipo de regra cria uma demanda por matéria-prima reciclada que precisa atender a requisitos industriais. Para a cadeia, isso significa que aumentar a quantidade recuperada não é suficiente: o resíduo precisa percorrer uma série de etapas até se transformar em um material que possa voltar ao processo produtivo com características minimamente estáveis.
O movimento brasileiro ocorre depois de iniciativas adotadas em outros mercados da região. No Chile, a Lei nº 20.920, conhecida como Lei REP, está em vigor desde 2016 e estabelece metas para a recuperação de resíduos. Para os plásticos, a meta indicada no material é de 32% até 2026. Na Colômbia, a Lei 2.232, de 2022, estabeleceu exigências específicas para garrafas PET, com conteúdo reciclado mínimo de 50%, percentual que deve chegar a 90% até 2030.
Embora os mecanismos e percentuais sejam diferentes, as três experiências apontam para uma mesma transformação: resíduos que antes eram tratados principalmente como um problema de destinação passam a ter importância também como fonte de matéria-prima. Isso coloca maior pressão sobre as etapas intermediárias da cadeia, especialmente aquelas responsáveis por separar, limpar, processar e dar previsibilidade ao material recuperado.
É nesse contexto que a Recupac, divisão de gestão de resíduos do Grupo Coipsa, ampliou sua atuação no processamento de plásticos reciclados no Chile.
Da gestão de resíduos à produção de matéria-prima
Com mais de 35 anos de atuação, a Recupac atende aproximadamente 500 clientes e gerencia mais de 150 mil toneladas de resíduos por ano. Entre os projetos recentes está uma planta de reciclagem de PEBD em San Bernardo, com capacidade para produzir 500 toneladas mensais.
A operação ilustra uma mudança na própria lógica de aproveitamento dos resíduos. Em vez de encerrar o processo na coleta e preparação do material, a empresa passou a avançar para uma etapa em que o plástico recuperado é transformado em insumo para novas aplicações. Segundo Macarena Hadad, Subgerente de Desenvolvimento de Negócios da Recupac, essa mudança surgiu da percepção de que havia espaço para ampliar o aproveitamento do material recuperado. “Enxergamos uma oportunidade de ir além, transformando esses materiais em uma nova matéria-prima reciclada capaz de reingressar nos processos produtivos.”
Os pellets produzidos na unidade já substituem aproximadamente 40% da resina virgem utilizada na fabricação de novos filmes plásticos. O dado mostra, na prática, uma das consequências do avanço da reciclagem sobre o mercado: o material pós-consumo deixa de ser apenas um resíduo a ser administrado e passa a disputar espaço dentro da formulação de produtos industriais.
Esse processo, porém, depende de uma cadeia de tratamento capaz de lidar com as diferenças encontradas nos resíduos pós-consumo. Materiais provenientes do descarte apresentam níveis variados de contaminação e características diferentes entre os lotes. Quanto maior a necessidade de utilizar esse material novamente na indústria, maior também a importância de reduzir essa variabilidade durante o processamento.
Na operação descrita pela Recupac, o material é coletado junto aos clientes e passa por triagem e enfardamento, inspeção secundária de qualidade, trituração, lavagem, secagem e extrusão. A sequência revela que a obtenção de um reciclado adequado não depende de uma única máquina ou etapa. O resultado final é consequência da combinação entre preparação do resíduo, limpeza, processamento e controle.
É justamente essa integração que Eugenio Bascuñán, Gerente Industrial da Recupac, aponta ao avaliar o processo. Para ele, “a chave está em entender que a qualidade não depende de uma única etapa do processo, mas de todo o processo integrado”. A afirmação ajuda a explicar por que o avanço das metas regulatórias não representa apenas uma questão de volume: quanto maior a necessidade de reincorporar reciclados à produção, maior a exigência sobre a consistência do material que chega à indústria.
A lavagem ocupa uma posição importante nessa sequência porque prepara o plástico para a etapa seguinte de processamento. Em materiais pós-consumo, essa preparação precisa lidar justamente com os problemas de contaminação e variabilidade característicos desse tipo de resíduo. Bascuñán resume o desafio ao afirmar que “a Lindner nos permite operar um processo de lavagem altamente eficiente e estável, o que é essencial ao processar materiais pós-consumo, onde a contaminação e a variabilidade são desafios inerentes.”
Depois da lavagem, o material segue para a extrusão, realizada com tecnologia Erema, empresa que mantém parceria tecnológica com a Lindner na área de reciclagem de plásticos. A conexão entre as etapas é relevante porque o material que sai da lavagem precisa apresentar condições adequadas para continuar seu processamento. Na avaliação da Recupac, a qualidade do pellet depende justamente da continuidade e do controle desse fluxo.
Por isso, Bascuñán ressalta que o desafio não está em avaliar cada equipamento isoladamente, mas em manter o funcionamento coordenado de toda a linha. “Não se trata apenas de alcançar excelência individualmente na lavagem ou na extrusão, mas de manter um processo totalmente integrado, contínuo e controlado do início ao fim, com tecnologia de última geração“, afirma.
Qualidade passa a ser fator central
A necessidade de aumentar a participação de materiais reciclados coloca a qualidade no centro da discussão. Uma meta de conteúdo reciclado só pode ser convertida em produção em escala se houver material disponível em quantidade e com características compatíveis com os processos industriais.
Na prática, isso aproxima dois desafios que tradicionalmente poderiam ser tratados de forma separada: a recuperação dos resíduos e a capacidade de transformá-los em uma matéria-prima utilizável. Quanto mais rigorosas forem as exigências de conteúdo reciclado, maior tende a ser a importância de controlar a qualidade ao longo dessas etapas.
A experiência relatada pela Recupac indica que a implantação da nova linha alterou tanto os parâmetros operacionais quanto a regularidade do material obtido. Bascuñán descreve o resultado destacando que “a implementação desta linha de reciclagem representou um avanço significativo. Hoje operamos um processo muito mais estável, com melhor limpeza, qualidade de pellet mais consistente e maior eficiência operacional“.
A consistência mencionada pelo gerente é particularmente relevante para a utilização de PCR, sigla usada para designar material reciclado pós-consumo. Para substituir parte da resina virgem, o reciclado precisa apresentar características que permitam sua incorporação ao processo industrial sem comprometer a previsibilidade da produção.
Nesse sentido, o debate sobre reciclagem deixa de estar concentrado apenas na quantidade de resíduos recuperados. A capacidade de produzir um reciclado com qualidade e regularidade passa a ser igualmente importante. É essa etapa que conecta as metas ambientais estabelecidas pelas regulamentações às necessidades práticas de fabricantes e transformadores.
A implantação de uma linha de reciclagem também envolve uma curva de adaptação operacional. Por isso, além dos equipamentos, a Recupac destaca o acompanhamento técnico realizado durante a implementação do projeto. Para Bascuñán, esse suporte teve importância na consolidação da operação: “O suporte local foi fundamental. Descreveria nossa colaboração com a Lindner como uma relação construída sobre cooperação mútua e apoio constante.”
Regulação amplia espaço para tecnologias de reciclagem
O avanço das exigências regulatórias modifica também as condições de mercado para as empresas que atuam no desenvolvimento e na implantação de tecnologias de reciclagem. Quando recuperação e conteúdo reciclado passam a fazer parte de metas obrigatórias, a capacidade de processar resíduos de maneira eficiente deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a estar relacionada ao cumprimento das próprias regras.
Nesse cenário, a tecnologia ocupa uma posição intermediária entre a geração do resíduo e sua reinserção na indústria. Equipamentos de triagem, lavagem e processamento precisam lidar com materiais cuja composição e grau de contaminação variam, enquanto o resultado esperado é um insumo com características suficientemente estáveis para retornar à produção.
A Lindner Washtech, especializada em tecnologias de lavagem de plásticos, ampliou sua presença regional nesse ambiente. Em 2025, a empresa estabeleceu uma subsidiária em São Paulo, sob a liderança de Frederico Hartmann, com a proposta de oferecer suporte técnico local, desenvolver projetos e prestar assistência comercial na América Latina.
A expansão ocorre em paralelo ao aumento das exigências relacionadas à circularidade dos plásticos na região. Chile, Colômbia e Brasil adotaram mecanismos distintos, mas convergentes em um ponto: ampliar a responsabilidade dos agentes que colocam embalagens no mercado e aumentar a participação de materiais reciclados na produção.
Para a cadeia de reciclagem, isso cria uma demanda que não se resume ao aumento de volume. É necessário desenvolver capacidade para transformar resíduos heterogêneos em materiais que possam atender às especificações dos processos industriais. Coleta, triagem, lavagem, processamento e controle de qualidade, portanto, passam a funcionar como partes de uma mesma cadeia de fornecimento.
Essa mudança também altera a relação entre os diferentes participantes do mercado. De um lado estão empresas responsáveis por colocar produtos e embalagens em circulação; de outro, operadores responsáveis pela recuperação e transformação dos resíduos. Entre eles, cresce a importância de sistemas capazes de garantir que o material recuperado tenha origem conhecida, tratamento adequado e características compatíveis com seu uso posterior.
A mudança regulatória, portanto, não se limita à destinação dos resíduos. Ela alcança a própria relação entre quem coloca o plástico no mercado e quem tem capacidade de recuperá-lo e transformá-lo novamente em matéria-prima. À medida que as metas avançam, a disponibilidade de reciclados com qualidade e regularidade tende a ganhar peso nas decisões da indústria.
O efeito mais amplo dessas regras é aproximar a política de resíduos da lógica industrial. Recuperar plástico passa a significar não apenas evitar seu descarte, mas também criar condições para que ele retorne à cadeia produtiva. Nesse processo, a capacidade de transformar resíduos em matéria-prima consistente pode se tornar tão importante quanto a própria capacidade de coletá-los.

