Encontrar Artigos

INDÚSTRIA QUÍMICA APRESENTA PROPOSTAS PARA COMPETITIVIDADE E INVESTIMENTOS ATÉ 2035

A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) apresentou nesta terça-feira (1º), em São Paulo, uma agenda com propostas para orientar as políticas públicas voltadas ao setor entre 2027 e 2035. O documento reúne seis frentes consideradas prioritárias pela entidade e coloca em discussão temas como custos de matérias-primas e energia, investimentos, inovação, comércio exterior, sustentabilidade e ambiente regulatório.

Apresentada durante o QMET Vision, a Agenda Estratégica da Indústria Química para o Brasil 2027-2035 foi colocada pela Abiquim como uma contribuição ao debate sobre os rumos da economia brasileira no próximo ciclo de governo. A proposta parte da avaliação de que a indústria química tem participação transversal na atividade econômica, ao fornecer insumos para segmentos como agronegócio, saúde, construção civil, automotivo, alimentos, infraestrutura e bens de consumo.

O documento está organizado em seis missões. A primeira trata de insumos e infraestrutura competitivos como política de Estado, com atenção especial à oferta e aos custos de matérias-primas e energia, incluindo o gás natural. A segunda propõe utilizar a demanda como instrumento de estímulo ao investimento e à política industrial, inclusive por meio do poder de compra do Estado.

A terceira frente prevê uma transição para uma base produtiva integrada, denominada pela entidade de Nova Química. A proposta inclui inovação, economia circular, reciclagem, química renovável, bioprodutos e soluções de baixo carbono, com manutenção da neutralidade tecnológica. As demais missões estão voltadas à defesa comercial e à segurança econômica, à ampliação de investimentos e inovação e à criação de mecanismos de governança e coordenação institucional.

Ao apresentar a agenda, o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro, associou a importância do setor químico à sua presença em diferentes cadeias industriais e defendeu uma visão de longo prazo para as políticas destinadas à indústria. “A indústria química está na base de praticamente todas as cadeias produtivas e, por isso, discutir o futuro do setor é discutir o futuro da própria indústria brasileira. Estamos apresentando uma agenda que olha para 2027, mas principalmente para os próximos dez anos, com propostas concretas para aumentar a competitividade, estimular investimentos e fortalecer a capacidade produtiva do país“, afirma.

Entre os pontos considerados estruturais pela entidade está o custo do gás natural, apontado como um dos fatores que afetam a competitividade da indústria química brasileira. Durante o evento, Daniela Manique, presidente para a América Latina da Solvay-Rhodia, defendeu mudanças na estrutura desse mercado e relacionou o preço do insumo à capacidade de agregar valor dentro do país. “O custo do gás natural é um dos principais fatores que comprometem a competitividade da indústria brasileira. Enquanto o gás chega a custar quatro ou cinco vezes mais no Brasil do que nos Estados Unidos e o dobro do preço praticado na Europa, é preciso rever a estrutura desse mercado. Precisamos criar condições para que esse recurso seja utilizado para produzir aqui, agregar valor e fortalecer a indústria nacional, e não apenas para exportar uma commodity“, afirmou.

A agenda também incorpora a transformação da base produtiva associada à economia circular. Para a líder regional da Dow no Brasil, Mariana Orsini, a adoção de novas tecnologias será necessária para ampliar a recuperação e o reaproveitamento de materiais. “A economia circular é uma agenda de futuro e exige que avancemos para além da lógica tradicional de produzir e colocar o produto no mercado. Já existem tecnologias e soluções para transformar produtos e embalagens em novos recursos, mas ainda há muito espaço para inovação“, disse. Na avaliação de Orsini, o avanço dessa agenda também depende de condições criadas pelo poder público para estimular investimentos. A executiva acrescentou que “O Estado tem um papel importante na criação de condições e incentivos para que esses investimentos avancem, permitindo que materiais que hoje terminam como resíduos possam voltar a circular na economia“.

A necessidade de continuidade das políticas públicas aparece como outro eixo da proposta apresentada pela Abiquim. A entidade defende que medidas relacionadas à indústria tenham horizonte superior ao ciclo de um governo, de forma a oferecer maior previsibilidade para decisões de investimento. Esse ponto foi destacado por Maximilian Yoshioka, diretor-presidente da Indorama Ventures Polímeros, na América Latina. Segundo ele, o objetivo é promover uma mudança estrutural na posição do Brasil diante da concorrência internacional. “O que estamos propondo é uma mudança estrutural, de política de Estado, e não apenas de política de governo. Precisamos reposicionar o Brasil na matriz de competitividade internacional, em condições de competir com países como China e Estados Unidos“, afirmou.

Yoshioka também relacionou a capacidade de avanço da indústria brasileira em sustentabilidade, circularidade e inovação às condições econômicas oferecidas para os investimentos. “A indústria brasileira tem conhecimento, tecnologia e capacidade para avançar em sustentabilidade, circularidade e inovação, mas precisa de condições competitivas e previsibilidade para fazer isso“, acrescentou. A questão dos investimentos aparece de forma direta na quinta missão da agenda. A Abiquim propõe medidas para modernização e expansão da capacidade produtiva, aumento da produtividade, incorporação de novas tecnologias e estímulo ao reinvestimento no país.

Para Francisco Fortunato, presidente do Grupo OCQ, a disposição do setor privado para investir permanece, mas a viabilidade econômica dos projetos teria mudado ao longo das últimas décadas. “O empresário industrial brasileiro não perdeu o apetite de investir no país. Nós queremos ampliar capacidade, modernizar plantas, agregar valor, empregar e desenvolver tecnologia aqui. O que mudou nas últimas duas décadas foi a conta: projetos que antes fechavam, deixaram de fechar“, afirmou.

Entre as condições defendidas pelo executivo estão crédito de longo prazo, custos competitivos, mecanismos de depreciação acelerada e estímulos ao reinvestimento. A posição apresentada por Fortunato é de que as medidas devem buscar melhorar as condições de competição da produção nacional, sem recorrer à proteção de mercado. “Não estamos pedindo proteção, mas condições para competir. Temos capital, ativos, equipes qualificadas e disposição para continuar investindo no Brasil“, ressaltou. Além das propostas apresentadas em âmbito federal, a Abiquim informou que mantém diálogo com lideranças estaduais em regiões que concentram polos industriais do setor, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul.

O QMET Vision também marcou uma iniciativa da associação para ampliar o diálogo com a imprensa e apresentar as prioridades reunidas no documento. Ao estabelecer o período de 2027 a 2035 como horizonte, a agenda coloca no centro da discussão questões que envolvem não apenas a indústria química, mas a capacidade do país de manter produção, investimentos e inovação integrados às demais cadeias econômicas.