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Reciclagem de plásticos enfrenta desafios de coleta e rastreabilidade um ano após novas regras

Com metas obrigatórias de recuperação de embalagens e incorporação de materiais reciclados, setor busca superar a capacidade ociosa e ampliar o aproveitamento de resíduos pós-consumo

A ampliação da reciclagem de plásticos no Brasil enfrenta um desafio que vai além da capacidade industrial instalada. Embora o país disponha de estruturas capazes de processar volumes maiores de resíduos, dificuldades relacionadas à coleta, à triagem e à regularidade no fornecimento de materiais ainda limitam o aproveitamento dessa estrutura. O cenário ganha relevância diante das novas exigências de logística reversa, que estabelecem responsabilidades para as empresas e ampliam a necessidade de comprovação da destinação das embalagens após o consumo.

Nesse contexto, o Decreto nº 12.688/2025, conhecido como Decreto do Plástico, completou um ano em 21 de outubro de 2026. A regulamentação estabelece metas progressivas para a recuperação de embalagens plásticas e para a incorporação de conteúdo reciclado pós-consumo na fabricação de novas embalagens. Em 2026, os índices nacionais mínimos são de 32% de recuperação e 22% de conteúdo reciclado, com previsão de aumento gradual até 50% e 40%, respectivamente, em 2040.

A exigência de conteúdo reciclado passou a valer em janeiro de 2026 para empresas de grande porte e em julho para pequenas e médias empresas, respeitadas as exceções previstas na regulamentação. Para demonstrar o cumprimento das obrigações, os responsáveis deverão atender aos dois indicadores de forma cumulativa. O primeiro relatório de resultados referente a 2026 deverá ser apresentado até 30 de julho de 2027, estabelecendo um novo compromisso de acompanhamento e comprovação dos volumes recuperados.

Os desafios para atingir esses resultados aparecem nos indicadores da indústria recicladora. De acordo com o levantamento anual do Movimento Plástico Transforma, realizado pela consultoria MaxiQuim, o Brasil gerou aproximadamente 5 milhões de toneladas de resíduos plásticos pós-consumo em 2025. No mesmo período, a produção de resinas recicladas pós-consumo alcançou 1,06 milhão de toneladas, crescimento de 5,1% em relação a 2024. Apesar do avanço, o nível operacional médio das recicladoras ficou em 59%, diante de uma capacidade instalada próxima de 2,4 milhões de toneladas anuais. A diferença entre o potencial de processamento e a atividade efetiva evidencia limitações em etapas anteriores à transformação dos resíduos em matéria-prima.

Para Alexandre Gallana, CEO da Yattó, empresa especializada em soluções de economia circular e logística reversa, a disponibilidade de equipamentos não é suficiente quando o abastecimento depende de sistemas de coleta ainda desiguais e de materiais que nem sempre apresentam condições adequadas para reciclagem. “A indústria já tem capacidade instalada para reciclar mais. O que limita é a cadeia antes dela: coleta que não chega a todos os lugares, fornecimento que oscila e material sem origem comprovada. Sem essa estrutura, a máquina fica parada e o mercado não consegue cumprir as metas estabelecidas”, afirma o CEO da Yattó.

O problema também envolve a necessidade de documentar a origem e o destino dos resíduos. Com a regulamentação, a rastreabilidade passa a desempenhar um papel importante na verificação dos resultados, exigindo registros que permitam acompanhar a movimentação dos materiais ao longo da cadeia. Para as empresas responsáveis pelas embalagens, isso representa a necessidade de estabelecer relações com fornecedores, cooperativas e recicladores capazes de garantir tanto o processamento quanto a comprovação dos volumes destinados.

Materiais de baixo valor ampliam os desafios da reciclagem

As dificuldades de aproveitamento também estão relacionadas às características dos resíduos que chegam às cooperativas. Um diagnóstico realizado pela Yattó em conjunto com a Converplast identificou que 92% do rejeito de uma cooperativa localizada em São Paulo era encaminhado para aterro sanitário, mesmo após passar pela etapa de separação. O resultado evidencia que a coleta, isoladamente, não garante a reinserção dos materiais no ciclo produtivo, especialmente quando faltam alternativas economicamente viáveis para sua comercialização e processamento.

Entre os materiais que enfrentam maiores obstáculos estão as embalagens plásticas flexíveis, utilizadas em produtos como salgadinhos, biscoitos e sachês. A composição e as características dessas estruturas podem dificultar a reciclagem mecânica, enquanto o baixo valor comercial de determinados resíduos compromete sua recuperação. Ainda assim, segundo os dados da MaxiQuim, as embalagens flexíveis representaram 19,7% do volume total de resíduos plásticos consumidos pela indústria recicladora brasileira em 2025.

A busca por alternativas para esses materiais envolve iniciativas que conectam diferentes participantes da cadeia. Uma delas é o Movimento Yattó Transforma, que utiliza recursos de marcas participantes para financiar operações de coleta e triagem de embalagens pós-consumo. Nesse modelo, cooperativas realizam a recuperação dos resíduos, enquanto empresas recicladoras são responsáveis por seu processamento. A operação também prevê o acompanhamento das etapas de movimentação e destinação dos materiais.

Com investimentos da Nestlé, a iniciativa informa ter alcançado a reciclagem de 200 milhões de embalagens flexíveis. O modelo representa uma possibilidade de estruturação da cadeia para resíduos que apresentam dificuldades de comercialização, embora sua ampliação dependa de investimentos contínuos, da participação de diferentes agentes e da existência de demanda pelos materiais recuperados.

Metas progressivas exigem estruturação da cadeia

Com o aumento previsto dos índices obrigatórios até 2040, a capacidade de recuperação de embalagens tende a ganhar maior importância no planejamento das empresas. Além de ampliar a utilização de plástico reciclado, o cumprimento das exigências envolve aspectos operacionais como a disponibilidade de fornecedores, a infraestrutura das cooperativas e os mecanismos de registro dos resíduos destinados à reciclagem.

Na avaliação de Gallana, o desenvolvimento dessas estruturas precisa acompanhar o avanço das exigências regulatórias, sobretudo diante das dificuldades já observadas no fornecimento de materiais pós-consumo. “As metas vão ficar mais altas até 2040. Quem não estruturar agora o fornecimento e a comprovação vai depender de um material que o mercado ainda não entrega com regularidade”, diz o executivo. O primeiro ciclo de prestação de contas, previsto para 2027, deverá oferecer informações sobre o atendimento às metas de 2026 e permitir uma avaliação mais concreta dos resultados da nova regulamentação.

Até lá, o setor terá de conciliar o crescimento da produção de reciclados com a superação dos entraves de coleta, triagem e comercialização, fatores que continuam influenciando a capacidade de transformar resíduos disponíveis em matérias-primas para a indústria.