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DO PRODUTO AO PRÓXIMO CICLO: COMO O DESIGN PODE AMPLIAR AS POSSIBILIDADES DE RECICLAGEM DO PLÁSTICO

Por Lucas Silva, líder do eixo de Logística e Infraestrutura da Rede pela Circularidade do Plástico

Um produto pode cumprir, perfeitamente, a função para a qual foi criado e ainda estar apenas no começo de sua trajetória. Quando se fala em plástico, isso ganha dimensão porque o material está presente em diferentes produtos e aplicações e, depois do uso, pode ser reciclado e voltar à cadeia produtiva como matéria-prima.

Segundo levantamento realizado pela MaxiQuim e divulgado pelo Movimento Plástico Transforma, foram geradas mais de 5 milhões de toneladas de resíduos plásticos pós-consumo no Brasil em 2025. Desse volume, 1,27 milhão de toneladas foram consumidas pela indústria de reciclagem mecânica, que produziu mais de 1 milhão de toneladas de resina reciclada pós-consumo, chegando a um índice de reciclagem mecânica de 21,3%.

Nas embalagens, mais de 1,1 milhão de toneladas de resíduos foram para a indústria recicladora e 955 mil toneladas de resina pós-consumo produzidas. 

A cadeia de reciclagem reunia, em 2025, 639 empresas, 21.013 empregos diretos e capacidade instalada de 2,392 milhões de toneladas.

Os números mostram a dimensão da estrutura existente para recuperar materiais, mas também o espaço para ampliar esse aproveitamento. Do total de resíduos plásticos pós-consumo geradas no país em 2025, 3,9 milhões de toneladas tiveram como destino aterros e outros destinos.

Parte desse desafio começa antes de a embalagem se tornar resíduo. As características definidas durante o desenvolvimento de um produto podem interferir diretamente nas possibilidades de separação, processamento e aproveitamento depois do uso. A escolha da resina, a combinação de diferentes materiais, o uso de cores, rótulos, adesivos, formatos e outros componentes pode facilitar ou dificultar as etapas pelas quais a embalagem passará depois do consumo.

Quando essas características são consideradas desde o projeto, o design deixa de olhar apenas para a função inicial do produto e passa a incorporar também as possibilidades de seu próximo ciclo. Uma embalagem pode ser desenvolvida para cumprir sua função, mas também para favorecer sua identificação, separação e processamento quando retornar à cadeia produtiva.

A reciclabilidade pode, portanto, ser considerada ainda na etapa de desenvolvimento, quando existe espaço para identificar dificuldades e avaliar alternativas. Quanto mais cedo essas características forem analisadas, maior a possibilidade de fazer ajustes no projeto antes que as escolhas se tornem definitivas. A plataforma Retorna, desenvolvida pela Rede pela Circularidade do Plástico, apoia esse processo ao analisar a reciclabilidade das embalagens a partir de suas características e das condições da cadeia de reciclagem. A plataforma reúne mais de mil regras de reciclabilidade e já registra 1.627 análises, 434 usuários cadastrados, 544 usuários ativos e 757 empresas cadastradas.

A diversidade dos materiais também precisa ser considerada nas decisões de design. PET, PEAD, PVC, PEBD, PP e PS possuem propriedades distintas e podem seguir diferentes caminhos depois do consumo. Em 2025, o índice de reciclagem foi de 49,2% para PET, 29,5% para PEAD, 17,5% para PP,9,4% para PEBD/PELBD, 8,9% para PVC e 8,5% para PS.

Cada resina plástica apresenta características próprias e pode encontrar diferentes destinos depois do consumo. O PET, por exemplo, pode ter seu material recuperado e transformado em fibras têxteis ou em novas aplicações. Outros plásticos também podem retornar à indústria em produtos diferentes daqueles para os quais foram originalmente desenvolvidos.

O caminho, no entanto, não depende apenas do desenho da embalagem. Em 2025, o comércio de resíduos respondeu por 37% do volume consumido pelas recicladoras, seguido pelas aparas industriais, com 22%, e pelos beneficiadores, com 18%. Cooperativas responderam por 9% e empresas de gestão de resíduos, por 10%. Coleta, triagem, infraestrutura, tecnologia e mercado fazem parte dessa equação.

Pensar no próximo ciclo durante o desenvolvimento não significa determinar antecipadamente o destino de cada produto. Significa ampliar as possibilidades para que o material continue tendo utilidade depois do primeiro uso.