
Por João Luiz Zuñeda, Sócio fundador da MaxiQuim
A indústria do plástico começa antes das máquinas de extrusão, injeção ou sopro. Começa na petroquímica, onde nafta, etano e outros líquidos de gás natural dão origem aos produtos básicos utilizados na fabricação das resinas. Por isso, as dificuldades das grandes petroquímicas acabam chegando às milhares de empresas que transformam essas resinas em produtos utilizados diariamente pela sociedade.
Dow e Braskem ajudam a compreender esse momento. Com situações financeiras diferentes, ambas enfrentam o desafio de recuperar competitividade em uma indústria marcada pelo excesso de capacidade instalada, pela expansão asiática e pela pressão sobre as margens.
A Dow lançou o programa Transform to Outperform, com a meta de adicionar pelo menos US$ 2 bilhões ao EBITDA operacional, aproximadamente dois terços provenientes de produtividade e um terço de crescimento. No terceiro trimestre de 2026, registrou vendas de US$ 11,3 bilhões e lucro líquido de US$ 525 milhões. Entretanto, os preços locais aumentaram 14% sobre o mesmo período do ano anterior, enquanto os volumes recuaram 1%. A melhora dos resultados merece atenção, mas preços maiores não significam necessariamente expansão da demanda.
No Brasil, a situação da Braskem é mais delicada. A companhia enfrenta uma crise financeira e um problema estrutural de competitividade. Além da negociação de aproximadamente US$ 11 bilhões em dívidas, credores apresentaram, em outubro, um pedido de Chapter 11 involuntário contra sua subsidiária financeira Braskem America Finance Company. O pedido não abrange todo o grupo, mas evidencia a pressão dos credores.
Reorganizar o passivo será apenas parte da solução. A Braskem precisará avançar na diversificação de matérias-primas, na modernização das unidades e no posicionamento de seus produtos diante de concorrentes com custos industriais menores.
A experiência americana mostra que esse quadro pode mudar. Décadas atrás, empresas dos Estados Unidos direcionaram parte de seus investimentos petroquímicos ao Oriente Médio, atraídas por matérias-primas competitivas. A ExxonMobil, por exemplo, estabeleceu parcerias com a SABIC na Arábia Saudita. Com o shale gas e a maior oferta de etano, os EUA voltaram a atrair grandes investimentos, como as unidades de eteno e polietileno da Dow em Freeport, inauguradas em 2017. Hoje, as resinas americanas abastecem também o Brasil e concorrem com a produção nacional. A disponibilidade de matéria-prima competitiva mudou a direção dos investimentos.
E onde entra a indústria brasileira do plástico? Segundo o Perfil ABIPLAST 2026, o país possui aproximadamente 14,9 mil empresas de transformação e reciclagem, responsáveis por mais de 409 mil empregos diretos. Em 2025, a produção de transformados plásticos alcançou 7,56 milhões de toneladas, enquanto o consumo aparente chegou a 8,28 milhões. As importações de produtos transformados cresceram 20% em volume, muito acima da produção nacional.
O desafio, portanto, vai além do preço da resina. O transformador pode recorrer à matéria-prima importada, mas também disputa mercado com produtos acabados provenientes de países com energia, escala e financiamento mais competitivos. O risco envolve toda a cadeia: produção, empregos, investimentos e capacidade de agregar valor.
As petroquímicas também participam do desenvolvimento de materiais, aplicações e tecnologias de processamento e reciclagem. Seu enfraquecimento compromete essa integração e reduz as possibilidades de inovação conjunta com os transformadores.
Na minha avaliação, a recuperação exige acesso a matérias-primas em condições competitivas, eficiência industrial e investimentos seletivos. Os transformadores, por sua vez, precisam continuar avançando em produtividade e diferenciação.
O Brasil precisa de uma petroquímica forte e de uma indústria de transformação competitiva. A experiência americana demonstra que condições adequadas de investimento podem renovar essa cadeia. Cortar custos ajuda a enfrentar a crise; criar condições para investir é o que permite voltar a crescer.
João Luiz Zuñeda
Sócio fundador da MaxiQuim

