
CADERNO ESTRATÉGICO CAP.M | em parceria com Plástico Sul América
Radar Nafta | outubro de 2026
Por Marcelo Mason | CAP.M Consulting
A pesquisa que a PSA News acaba de publicar nesta última segunda-feira colocou no centro da conversa uma hipótese que venho ouvindo de compradores desde setembro, a de que o petróleo ficaria no patamar de US$ 100 até 2027. O Brent fechou a última sexta-feira perto de US$ 110, no nível mais alto desde maio. Abriu esta segunda-feira em torno de US$ 108, depois de os Estados Unidos suspenderem parte das sanções sobre combustíveis russos, e acumula alta de mais de 75% no ano. Escolhi essa pergunta para inaugurar o Radar Nafta no formato mensal. A partir de agora, cada edição vai acompanhar o que se move no petróleo, na nafta, no frete e na capacidade de PE e PP, e o que isso significa para quem compra resina no Brasil.
Para os próximos meses, a hipótese tem fundamento. A EIA trabalha com Brent médio de US$ 105 no quarto trimestre. O Standard Chartered projeta US$ 107 para o mesmo período e US$ 112 para o primeiro trimestre de 2027, e o DBS espera o barril entre US$ 100 e US$ 110 pelo menos até a eleição americana de novembro. Todos se apoiam num quadro físico que segue apertado. O fluxo de petróleo do Golfo, que passava de 20 milhões de barris por dia, caiu para cerca de 8,5 milhões na média de sete dias calculada pela Kpler, e só na última semana houve ao menos dez incidentes com navios comerciais na região. Quando o horizonte passa a ser a média de 2027, porém, as projeções descem de forma consistente. O próprio Standard Chartered fica em US$ 89,50, a EIA em US$ 83,70 e a Fitch em US$ 70. O Goldman Sachs, que em março admitia o petróleo acima de US$ 100 até 2027 num cenário de interrupções persistentes, hoje trabalha com US$ 80. A curva futura conta a mesma história, com o contrato de abril de 2027 perto de US$ 90 e o de outubro perto de US$ 83. Pelos números de hoje, o patamar de US$ 100 descreve bem o trimestre que estamos atravessando e deixa de se sustentar quando se olha para o ano que vem. Isso não afasta o risco de novos picos, já que o próprio Goldman admite valores acima de US$ 120 se a passagem por Ormuz voltar a se fechar.
Mesmo que o barril fique acima de US$ 100 por mais tempo do que as projeções indicam, esse custo não passa automaticamente para o polietileno e o polipropileno, ponto em que venho insistindo desde o início do conflito. A nafta acompanhou o petróleo, com o CFR Japão em US$ 973,81 por tonelada no meio do mês, mas o spread da nafta sobre o Brent está praticamente zerado, e isso diz muito sobre a demanda. Quando o petroquímico asiático compra nafta com apetite, ela costuma ser negociada com prêmio sobre o barril. Com o spread perto de zero, o que se vê são crackers trabalhando com margem apertada, reduzindo carga e comprando o mínimo necessário, num mercado que já havia entrado na guerra com excesso de capacidade. Nessas condições, a resina sobe puxada pelo custo, mas encontra pouca sustentação do lado de quem compra.
O conflito chega ao transformador brasileiro sobretudo pela logística. O afretamento de petroleiros LR2 entre o Golfo e o Japão bateu recorde de US$ 280 mil por dia. O seguro de guerra para cruzar Ormuz passou a custar entre 3% e 10% do valor do casco, contra cerca de 0,25% antes do conflito, e o contêiner foi junto. O índice composto da Drewry está em US$ 4.485 por contêiner de 40 pés, ante cerca de US$ 1.651 há um ano. O SCFI na rota Xangai-Santos chegou a US$ 8.953 por TEU no início de setembro e recuou para perto de US$ 6.530 no fim do mês, com expectativa de algo entre US$ 5.500 e US$ 6.500 nos próximos 30 dias. Pelas nossas contas, isso coloca o frete da resina chinesa até Santos entre US$ 240 e US$ 285 por tonelada, o equivalente a 20% a 25% do preço CFR, quando historicamente essa parcela ficava perto de 10%. Há ainda um detalhe que pouca gente leva para a planilha. O imposto de importação incide sobre o valor aduaneiro, que no Brasil inclui frete e seguro, e por isso cada dólar a mais no frete chega ao custo do transformador acrescido de 20%.
Enquanto o custo pressiona, a capacidade continua entrando. A China adiciona neste ano 5,5 milhões de toneladas de capacidade de PE e 5,7 milhões de PP. Nos Estados Unidos, o complexo da Golden Triangle Polymers, no Texas, avança na partida do cracker de etano e de duas linhas de PEAD de 1 milhão de toneladas cada, com operação plena prevista para 2027. Nos Emirados, a Borouge 4, com 1,4 milhão de toneladas por ano, segue em rampa, com produção voltada para Índia e China. Para 2027 e 2028, a Argus projeta mais 23 milhões de toneladas de PE e 15 milhões de PP no mundo, com a taxa global de utilização perto de 74%, o piso deste ciclo. Os sinais de curto prazo já mostram o limite da alta. O PEBDL subiu 5,96% na China em outubro, e a SunSirs já fala em teto para o movimento porque a demanda não acompanhou. Nos Estados Unidos, os produtores anunciaram aumento de 7 centavos de dólar por libra para outubro, mas a leitura que a PTOnline colhe no mercado é de preços estáveis ou em queda nos próximos meses.
No Brasil, essa disputa entre custo e oferta passa por um filtro adicional. O país é deficitário nas três resinas, com produção de cerca de 1,25 milhão de toneladas de PEAD para um consumo de 1,5 milhão, 1 milhão de PEBDL para 1,4 milhão e 1,85 milhão de PP para 2,05 milhões. Por isso a paridade de importação funciona como a principal referência de preço. Essa paridade segue protegida por duas medidas. A primeira é o imposto de importação de 20% para PE e PP, que o Gecex renovou de 17 de outubro deste ano a 16 de outubro de 2027, com exceção do PVC, que volta aos 12,6%. A segunda é o direito antidumping sobre o polietileno dos Estados Unidos e do Canadá. Na prática, o preço interno tende a reagir mais ao frete do que ao barril, e uma normalização da logística pode reduzir a paridade mesmo com o petróleo ainda alto.
Para quem precisa decidir compras agora, a leitura que tenho feito com clientes divide os próximos meses em três janelas. Até meados de novembro, o preço tende a se manter firme, sustentado pelo custo do petróleo e da logística. Não vejo vantagem em alongar contratos que embutam esse prêmio de guerra, o que recomenda cobertura curta, de 30 a 45 dias. Em dezembro começa uma transição, com a capacidade americana e a do Oriente Médio ganhando volume e com a perspectiva de algum alívio no frete. É o momento de preparar janelas de importação para o período entre dezembro e fevereiro e de ter ao menos uma origem alternativa qualificada. A partir de janeiro, se nada de novo acontecer em Ormuz, a superoferta volta a ser a força dominante. A negociação deve então partir de uma paridade calculada com o frete do momento, separando na conta o que é custo logístico do que é preço da resina. No PP eu seria ainda mais cauteloso com estoque. A China adiciona neste ano mais capacidade de PP do que de PE, num produto em que já se aproxima da autossuficiência.
O reciclado tem uma variável a mais. A meta de 22% de conteúdo reciclado pós-consumo para 2026, que precisa ser reportada até 30 de abril de 2027, só aceita material de origem nacional e com rastreabilidade comprovada. Esse tipo de material não aparece na mesma velocidade que a resina virgem, e quem depende de PCR para cumprir o decreto não deveria usar a superoferta da virgem como argumento para adiar contratos de fornecimento.
Volto ao tema na edição de novembro, já com o frete do mês, com a chegada da nova capacidade americana ao mercado e com a resposta dos preços chineses à perda de fôlego da alta de outubro. Até lá, a minha sugestão é acompanhar o petróleo com atenção, mas tomar as decisões de compra a partir do frete e da capacidade que está entrando. É ali que o preço da resina vai ser definido nos próximos meses.

Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, especializada em estratégia, marketing e ESG para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.
