
Unidade instalada em Campo Bom recebeu investimento de R$ 20 milhões e terá capacidade inicial de 150 mil quilos do material por mês, reduzindo a dependência de importações
A produção comercial de poliuretano termoplástico expandido, conhecido como E-TPU, começou em Campo Bom, no Rio Grande do Sul, em uma iniciativa que marca a primeira fabricação comercial do material na América Latina. A tecnologia, utilizada principalmente em entressolas de calçados esportivos e casuais, passa a contar com uma estrutura produtiva instalada no Brasil. A nova unidade recebeu investimento de R$ 20 milhões e inicia as operações com capacidade para produzir 150 mil quilos de E-TPU por mês. De acordo com as informações divulgadas sobre o projeto, esse volume pode viabilizar a fabricação de aproximadamente 1,5 milhão de pares de calçados mensais, dependendo da quantidade de material utilizada em cada produto.
A instalação é resultado de um projeto desenvolvido pela FCC, empresa que mantém unidade em Campo Bom e atua no fornecimento de materiais para a indústria calçadista. A companhia afirma que a produção nacional permitirá substituir parte da dependência de materiais importados e aproximar o desenvolvimento da tecnologia dos fabricantes brasileiros. O E-TPU é formado por partículas expandidas de poliuretano termoplástico. Durante o processo, os grânulos de TPU são submetidos a calor e pressão, aumentando de volume e formando pequenas estruturas celulares. O resultado é um material de baixa densidade, elasticidade e elevada capacidade de retorno de energia. A tecnologia já é utilizada internacionalmente em calçados esportivos e de segurança.
NOVA CAPACIDADE PRODUTIVA
A unidade de Campo Bom foi projetada de forma modular, com espaço para a instalação de um novo reator. A configuração permite ampliar a capacidade caso a demanda pelo material cresça, a produção local também altera uma característica importante da cadeia de fornecimento. Até então, fabricantes brasileiros que desejavam utilizar E-TPU precisavam recorrer à importação do material expandido ou adquirir componentes produzidos no exterior. Como se trata de um material de baixa densidade, o transporte ocupa um volume elevado em relação ao peso, o que pode aumentar os custos logísticos.
Marcelo Reichert, CEO da FCC, afirma que a implantação da fábrica envolve também a formação de conhecimento técnico no país. “A relevância deste investimento vai além da implantação de uma nova linha industrial. Estamos internalizando uma tecnologia estratégica, formando competências técnicas no Brasil e criando condições para que nossos clientes desenvolvam produtos de maior valor agregado com mais proximidade, segurança de fornecimento, capacidade de customização e maior competitividade“, disse. Com a fabricação no país, a matéria-prima passa a estar disponível mais próxima dos principais polos de transformação e fabricação de calçados, a expectativa é que essa proximidade facilite testes, desenvolvimento de componentes e adequações de formulação.

A empresa havia iniciado, em 2025, a comercialização de E-TPU importado no Brasil, permitindo que fabricantes realizassem testes e desenvolvessem aplicações antes do início da produção nacional. A entrada em operação da unidade representa, portanto, uma mudança da etapa de testes e fornecimento importado para uma estrutura de fabricação local.
Uma das principais características do E-TPU é o chamado retorno de energia, ou rebound. A estrutura celular do material permite que ele seja comprimido durante o movimento e recupere parte de sua forma, devolvendo energia. Essa propriedade é particularmente relevante para entressolas de calçados esportivos. A tecnologia também combina baixa densidade, elasticidade, resistência mecânica e durabilidade, para a BASF, que desenvolve E-TPU para aplicações em calçados, descreve o material como uma espuma de partículas de células fechadas, utilizada para obter baixo peso, propriedades mecânicas e resiliência.
A tecnologia ganhou espaço internacionalmente em produtos esportivos e também passou a ser utilizada em calçados casuais e de segurança. A aplicação não se restringe, portanto, ao mercado de alta performance, embora esse seja um dos principais segmentos associados ao material.
IMPACTO NA CADEIA BRASILEIRA
A chegada da produção comercial ocorre em um setor de grande relevância para a indústria brasileira. Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), o país produziu 847,5 milhões de pares em 2025, conta com mais de 5 mil empresas e mais de 270 mil postos de trabalho. O setor representa cerca de 2% do Produto Interno Bruto da indústria de transformação brasileira.
No mesmo ano, a produção recuou 1,9%, enquanto as importações de calçados cresceram 20,6%. O cenário aumentou a pressão sobre os fabricantes brasileiros em relação a custos, produtividade e diferenciação dos produtos. Nesse ambiente, a disponibilidade de novos materiais no mercado nacional pode ampliar as alternativas para fabricantes que buscam desenvolver produtos com características específicas de peso, conforto e desempenho. A produção local de E-TPU também pode favorecer a criação de componentes e produtos destinados a outros mercados da América Latina, que igualmente dependem de fornecedores externos.
INOVANDO O PROCESSO
Além da produção do material expandido, o projeto envolve o domínio da tecnologia de produção do TPU, matéria-prima utilizada na fabricação do E-TPU. Essa integração permite trabalhar com diferentes formulações e características do material.
Francisco Gonçalves, diretor de Negócios da FCC, explica que essa combinação permite acompanhar o desenvolvimento desde a matéria-prima até a aplicação final. “O domínio da matéria-prima e do processo de expansão nos dá condições de trabalhar junto aos clientes desde a formulação até o desempenho final do calçado. Esse conhecimento é o principal diferencial do projeto e reforça nossa estratégia de inovação aplicada à indústria“, afirmou.
Outro ponto destacado no projeto é o aproveitamento de resíduos. Segundo a empresa, o E-TPU apresenta perdas reduzidas em determinadas aplicações em comparação com materiais tradicionalmente empregados em entressolas, como o EVA, e os resíduos podem ser direcionados para novos ciclos de processamento de TPU.
A produção comercial iniciada em Campo Bom coloca, assim, uma nova tecnologia de materiais dentro da cadeia industrial brasileira. Mais do que ampliar a oferta de um insumo, a instalação cria uma alternativa nacional para uma matéria-prima que até então dependia de fornecimento externo e abre uma nova frente para o desenvolvimento de calçados e componentes no país.

