
Por João Luiz Zuñeda, Sócio Fundador MaxiQuim
A situação da Braskem voltou ao centro das discussões sobre o futuro da indústria química brasileira. E os resultados divulgados hoje acrescentam um elemento importante a esse debate: a companhia reverteu o prejuízo e registrou lucro líquido de aproximadamente R$ 3,3 bilhões no segundo trimestre de 2026. É uma sinalização positiva em um momento particularmente desafiador para a empresa.
O resultado, porém, não elimina as questões estruturais. O elevado endividamento e o processo de reestruturação financeira mantêm o futuro da companhia no centro das atenções. Para quem atua na indústria de transformação de plásticos, entretanto, existe uma questão ainda maior: como ficará a competitividade da cadeia petroquímica brasileira nos próximos anos?
A Braskem não é apenas uma grande companhia enfrentando um problema financeiro. É o principal elo entre a petroquímica básica e milhares de empresas que transformam polietilenos, polipropileno, PVC e outras matérias-primas em embalagens, tubos, filmes, peças técnicas, componentes para automóveis, construção civil, agronegócio, saúde e bens de consumo. Discutir o futuro da Braskem significa, portanto, discutir o futuro de uma parcela importante da indústria brasileira do plástico.
O problema não começou no balanço
A melhora dos resultados é importante, assim como uma eventual reorganização financeira pode ser necessária para equacionar dívidas e compromissos. Mas nenhuma dessas medidas resolve, sozinha, a questão fundamental: como devolver competitividade estrutural à petroquímica brasileira?
A petroquímica mundial atravessa uma profunda transformação. Especialmente na Ásia, foram adicionadas enormes capacidades de produção. A China, durante décadas um grande mercado importador, tornou-se também um dos principais produtores mundiais. Ao mesmo tempo, Oriente Médio e Estados Unidos operam com importantes vantagens de escala, integração e acesso a matérias-primas competitivas.
O resultado é um mercado internacional mais disputado. Para o Brasil, a pressão das importações aumenta justamente quando a indústria nacional convive com custos elevados e desafios históricos relacionados a matérias-primas, energia e logística. Essa realidade chega diretamente ao transformador. Importações exercem um papel importante, diversificando fornecedores e permitindo acesso a diferentes grades e condições comerciais. O problema surge quando seu crescimento deixa de representar apenas uma alternativa de suprimento e passa a refletir uma perda estrutural de competitividade da produção brasileira.
Cria-se, então, um paradoxo: o Brasil possui petróleo, produz cada vez mais no pré-sal, dispõe de gás natural, tem um grande mercado consumidor e uma das maiores indústrias de transformação de plásticos da América Latina. Ainda assim, pode ampliar sua dependência de produtos químicos, petroquímicos e resinas importadas. Podemos exportar cada vez mais recursos naturais e importar de volta produtos de maior valor agregado.
Petrobras e Braskem: duas empresas de escala mundial
É justamente nesse ponto que o papel da Petrobras na Braskem ganha dimensão estratégica. A Petrobras demonstrou que o Brasil é capaz de competir no mais alto nível da indústria mundial de petróleo. A companhia desenvolveu uma das mais avançadas operações de exploração e produção offshore e transformou o pré-sal em uma enorme vantagem competitiva.
O Brasil já está entre os maiores produtores mundiais de petróleo, tendo a Petrobras como protagonista. Em águas profundas e ultraprofundas, a companhia compete em tecnologia, produtividade e custos no mesmo ambiente dos grandes produtores internacionais, inclusive dos Estados Unidos e do Oriente Médio.
A Braskem também construiu uma posição relevante na petroquímica mundial. Deixou de ser apenas uma petroquímica brasileira para se consolidar como um grupo global. Além de sua importante base industrial no Brasil, possui ativos nos Estados Unidos e no México, ampliando sua escala, acesso a matérias-primas e presença em mercados estratégicos.
Portanto, não estamos começando do zero. O Brasil reúne uma Petrobras altamente competitiva em exploração e produção e uma Braskem com escala e presença global na petroquímica. A questão é como aproximar essas competências e transformar nossas vantagens em petróleo, gás, refino e petroquímica em competitividade para toda a cadeia do plástico.
A petroquímica nasceu associada ao refino e ao processamento de petróleo e gás. Matérias-primas, escala, integração energética e logística continuam sendo determinantes para sua competitividade. A discussão sobre a Braskem, portanto, não deveria se limitar à estrutura financeira ou societária. Deveria incluir uma estratégia de integração entre petróleo, gás, refino e petroquímica.
A própria Petrobras voltou a tratar fertilizantes como atividade estratégica, retomando projetos baseados na integração com gás natural e ativos industriais. Se existe racional econômico para reconstruir essa cadeia, é legítimo perguntar: por que uma lógica semelhante não pode ser aprofundada na petroquímica?
A competitividade alcançada pela Petrobras na exploração e produção pode contribuir para que a petroquímica brasileira tome outro rumo. Não se trata de transferir competitividade de uma atividade para outra, mas de aproveitar matérias-primas, escala, infraestrutura, tecnologia e capacidade de investimento.
Se Petrobras e Braskem conseguiram construir posições relevantes em seus respectivos mercados globais, por que o Brasil não poderia utilizar essas competências para recolocar sua petroquímica em uma trajetória de competitividade mundial?
O que a indústria do plástico precisa?
Para os transformadores, talvez a melhor Braskem não seja simplesmente uma empresa financeiramente reorganizada. É uma Braskem competitiva: capaz de investir, desenvolver produtos, garantir suprimento, avançar em circularidade e competir internacionalmente.
Isso não significa fechar o mercado. O transformador brasileiro continuará trabalhando com matérias-primas nacionais e importadas. Reconstruir a competitividade significa criar condições para que a produção nacional consiga competir em um mercado aberto e globalizado.
Isso passa por matérias-primas competitivas, escala, eficiência, logística, energia, inovação, reciclagem e maior integração da cadeia. O objetivo não deveria ser proteger uma empresa da competição internacional, mas criar condições para que a indústria instalada no Brasil possa enfrentá-la.
Existe ainda outro ponto fundamental: não haverá uma petroquímica forte se seus clientes não forem competitivos. Os transformadores enfrentam concorrência de produtos acabados importados, custos financeiros elevados, necessidade permanente de investimentos, exigências ambientais e rápidas mudanças nos mercados consumidores.
Mais do que vender resinas, uma petroquímica moderna precisa trabalhar com os transformadores no desenvolvimento de aplicações, produtividade, novos materiais, reciclabilidade e soluções capazes de aumentar a competitividade dos produtos brasileiros. Circularidade, reciclagem mecânica e química e novas exigências regulatórias tornam essa aproximação ainda mais importante.
Uma petroquímica competitiva precisa de transformadores competitivos. E transformadores competitivos precisam de uma petroquímica eficiente, inovadora e integrada ao mercado internacional.
O Brasil precisa decidir o que fazer com suas vantagens
O país possui uma combinação pouco comum: petróleo, gás natural, infraestrutura de refino, complexos petroquímicos, mercado consumidor e uma ampla indústria transformadora. A questão é como conectar essas vantagens.
O Brasil corre o risco de seguir uma trajetória contraditória: ser cada vez mais competitivo na produção e exportação de petróleo e, ao mesmo tempo, tornar-se mais dependente da importação de produtos químicos, petroquímicos e resinas.
O sucesso da Petrobras no pré-sal mostra que o país pode construir vantagens competitivas de classe mundial quando combina recursos naturais, tecnologia, escala e estratégia. A trajetória da Braskem mostra que também fomos capazes de construir uma petroquímica de dimensão global, com ativos relevantes dentro e fora do país.
Temos uma empresa de petróleo altamente competitiva em escala mundial e uma das grandes petroquímicas globais. O desafio é transformar essa combinação em uma cadeia do plástico igualmente competitiva.
Isso não significa produzir tudo internamente. As importações continuarão tendo papel relevante. Mas existe uma diferença entre participar de um mercado global e perder capacidade industrial em segmentos nos quais o país possui matérias-primas, ativos, conhecimento e mercado consumidor.
Muito além de uma recuperação financeira
O lucro apresentado pela Braskem no segundo trimestre é uma boa notícia. Mas o desafio estratégico permanece. Uma melhora operacional pode fortalecer a companhia e uma reorganização financeira pode equacionar seu passivo. Nenhuma delas, isoladamente, responderá à questão que mais interessa à cadeia: a indústria brasileira do plástico será mais ou menos competitiva daqui a dez anos?
Talvez o Brasil tenha diante de si uma oportunidade maior. De um lado, uma Petrobras que alcançou competitividade internacional em exploração e produção. De outro, uma Braskem com escala e presença global. A aproximação dessas competências pode abrir um caminho diferente para a petroquímica brasileira.
O mundo mudou. China, Oriente Médio e Estados Unidos continuarão sendo fortes competidores, e novas capacidades continuarão buscando mercados, inclusive na América Latina. O Brasil precisa competir nesse novo ambiente.
Resultados trimestrais podem melhorar. Uma reestruturação financeira pode reorganizar o passivo. Uma nova estrutura societária pode reorganizar o controle. Mas somente uma estratégia industrial poderá reorganizar o futuro.
Para os milhares de transformadores que compram resinas, investem, inovam, empregam e competem diariamente, é justamente essa terceira reorganização que mais importa. Porque o futuro da Braskem não termina na porta da petroquímica. Ele começa ali – e continua dentro de toda a indústria brasileira do plástico.

Por João Luiz Zuñeda, Sócio Fundador MaxiQuim

