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O MUNDO ESTÁ FICANDO SEM ROTAS SEGURAS PARA O COMÉRCIO GLOBAL?

Por João Luiz Zuñeda 

Sócio Fundador da MaxiQuim 

Por décadas, a indústria química e petroquímica se acostumou a uma premissa simples: matéria-prima, energia e produto acabado circulam pelo mundo com frete barato e rotas previsíveis. Foi essa lógica que permitiu petróleo, gás, nafta, etano, monômeros e resinas percorrerem milhares de quilômetros até chegar à fábrica do transformador de plástico. Essa premissa está sendo testada, e não por um único motivo isolado.

O comércio marítimo global está enfrentando uma combinação incomum de riscos ao mesmo tempo. O Estreito de Ormuz, artéria vital para o fluxo de energia, segue pressionado pelo conflito no Oriente Médio. Bab el-Mandeb e o Mar Vermelho continuam com tráfego restrito, empurrando navios para rotas alternativas mais longas. Isso afeta diretamente a petroquímica, já que Oriente Médio e Ásia concentram parte relevante da produção de eteno, propileno, PE, PP, PET e outras resinas.

O problema não fica limitado a quem produz petróleo. Ele se propaga por toda a cadeia: petróleo e gás alimentam a petroquímica, a petroquímica produz monômeros e resinas, e as resinas abastecem milhares de transformadores. Uma ruptura no início dessa cadeia costuma reaparecer semanas depois como frete mais caro, prazo de entrega mais longo, resina mais escassa ou necessidade de carregar mais estoque.

Na prática, isso já aparece na logística. Navios que passariam pelo Mar Vermelho e pelo Canal de Suez estão contornando a África, o que aumenta distância, consumo de combustível, frete e prazo. O Canal do Panamá também sente a pressão, somando mais tráfego a restrições de água. O *The Guardian* noticiou, em 12 de agosto de 2026, um caso em que um navio pagou cerca de US$ 4 milhões para furar a fila e passar mais rápido pelo canal, num período em que a espera normal já chegava a dez dias.

Há ainda um segundo fator tornando o quadro mais complexo: a geopolítica está esbarrando no clima. Enquanto o Panamá lida com o nível da água, o Rio Reno, uma das principais vias industriais da Europa, opera com volume baixo, reduzindo a capacidade de transporte fluvial e forçando empresas a migrar para ferrovia e rodovia, alternativas mais caras.

O ponto que mais chama atenção não é uma rota isolada, é a simultaneidade. Ormuz, Mar Vermelho, Panamá e Reno pressionados ao mesmo tempo deixam pouca margem de manobra para uma cadeia que foi montada ao longo de décadas em cima de transporte internacional barato, eficiente e previsível.

O que isso muda para quem compra resina

Logística e geopolítica deixaram de ser assunto de fundo e passaram a ser parte da estratégia de compra.

Um transformador pode comprar PE, PP, PVC, PET ou PS de diferentes origens, mas o preço internacional da resina é só uma parte da conta. Frete, disponibilidade de contêiner, tempo de trânsito, seguro, estoque de segurança, origem do material e confiabilidade do fornecedor ganham peso crescente no custo real que chega até a fábrica.

Isso muda também a comparação entre resina nacional e importada. Uma resina de origem distante pode ter um preço FOB muito competitivo no papel. Mas, somando frete, seguro, capital de giro parado em estoque maior e o risco de a rota ser interrompida sem aviso, essa vantagem de preço pode encolher rápido, ou até desaparecer.

O relato de um transformador que conheço ilustra bem esse risco. Ele comprou um container de polipropileno da China, atraído por um preço FOB bastante competitivo. O carregamento demorou muito mais do que o previsto para chegar. E quando a sacaria finalmente foi aberta, veio misturada com areia e papel. Nessa hora, a pergunta deixa de ser teórica: vai reclamar com quem, a milhares de quilômetros de distância, sem o mesmo respaldo contratual, jurídico e comercial que teria com um fornecedor local? O desconto no preço da resina, quando existiu, evapora diante do prejuízo com a carga perdida, do atraso na produção e do tempo gasto tentando correr atrás do problema.

Para o Brasil e para a América Latina, essa conta pesa de um jeito particular. A região reúne mercado consumidor relevante, produção petroquímica instalada e disponibilidade de matéria-prima, ingredientes que voltam a dar valor econômico a estar perto do abastecimento.

Talvez estejamos entrando numa fase diferente da globalização industrial. Por muito tempo, a lógica foi produzir onde saía mais barato e transportar até onde estava o mercado. Agora entra na conta um quinto elemento, ao lado de custo de produção, energia, matéria-prima e logística: segurança de abastecimento.

Para o transformador, isso pode significar revisar a carteira de fornecedores, equilibrar melhor resina nacional e importada, e repensar o nível de estoque de segurança. Para quem produz petroquímico, pode significar que estar perto do cliente volta a valer mais do que valia há alguns anos.

A pergunta que guiava as decisões de compra costumava ser: onde encontro a resina mais barata?

Hoje, vale a pena perguntar também: qual é o custo e o risco reais dessa resina colocada dentro da minha fábrica?

Se a instabilidade atual continuar, geopolítica, energia e segurança logística devem seguir redesenhando o mapa da petroquímica e da transformação de plástico, e quem se antecipar a esse movimento larga na frente.

Por João Luiz Zuñeda 

Sócio Fundador da MaxiQuim