
A economia circular já faz parte da estratégia de mais da metade das indústrias brasileiras. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 57% das empresas pesquisadas adotam pelo menos uma prática voltada à redução do desperdício, reaproveitamento de materiais ou reinserção de recursos nos processos produtivos. O estudo ouviu mais de 1.600 industriais em todo o país. A adoção, no entanto, varia de acordo com o porte das empresas. Entre as grandes indústrias, o índice chega a 66%, enquanto alcança 54% das médias e 43% das pequenas. O resultado mostra que, embora a economia circular esteja ganhando espaço na indústria, o acesso a tecnologias, recursos financeiros e mão de obra qualificada ainda limita a expansão dessas práticas, especialmente entre empresas menores.
A reciclagem é a iniciativa mais comum, adotada por 32% das indústrias. Na sequência aparecem a logística reversa de produtos e embalagens e a utilização de materiais reciclados ou recuperados na fabricação de produtos, ambas mencionadas por 26% das empresas. Além da destinação e reaproveitamento de materiais, a economia circular começa a ser relacionada pelas empresas a ganhos de eficiência e competitividade. A redução dos custos operacionais é apontada por 40% das indústrias como o principal benefício esperado, seguida pela melhoria da imagem corporativa, com 31%, e pelo estímulo à inovação em produtos, processos e serviços, citado por 30%.
O avanço dessas práticas também está associado à agenda climática. Entre as empresas que já adotam alguma iniciativa de economia circular, 57% entendem que suas ações contribuem para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. “Esses dados reforçam a percepção crescente da indústria sobre o papel estratégico da economia circular na agenda climática. Ao promover a eficiência de recursos e o uso de biomateriais, o país reduz a intensidade de emissões de gases de efeito estufa no setor”, afirma Larissa Malta, analista de Políticas e Indústria da CNI.
O levantamento mostra, porém, que ainda existe dificuldade para mensurar os resultados econômicos dessas iniciativas. Embora 40% das empresas reconheçam a redução de custos como um benefício, 46% afirmam não saber medir o impacto direto dos investimentos em economia circular sobre o faturamento. Entre os principais obstáculos para ampliar essas práticas estão a falta de demanda por produtos circulares e as elevadas taxas de juros, ambas apontadas por 25% das empresas. A falta de isonomia tributária entre materiais reciclados e materiais virgens é mencionada por 23%.
No campo tecnológico, a viabilidade econômica das soluções necessárias é a principal barreira, citada por 30% das indústrias. Para as pequenas empresas, a falta de mão de obra qualificada aparece como um dos principais entraves. A percepção do mercado consumidor também pesa. Para 37% dos industriais, a falta de conhecimento do consumidor sobre produtos circulares dificulta o avanço do modelo, enquanto 21% apontam uma percepção negativa do público em relação a esse tipo de produto.
Diante desse cenário, a indústria defende políticas públicas capazes de reduzir os obstáculos aos investimentos. Quase metade dos empresários, 47%, considera prioritária a criação de incentivos econômicos para infraestrutura de reciclagem e logística reversa. Outros 46% defendem incentivos para projetos de inovação voltados à economia circular.
O diagnóstico apresentado pela CNI indica que a economia circular já está incorporada a uma parcela significativa da indústria brasileira, mas sua expansão dependerá da capacidade de reduzir custos, ampliar o acesso à tecnologia e ao financiamento e criar condições para que empresas de menor porte também possam avançar na adoção de modelos mais eficientes de uso e reaproveitamento de recursos.

