
CADERNO ESTRATÉGICO CAP.M | em parceria com Plástico Sul América
Por Marcelo Mason | CAP.M Consulting
Por que o preço caiu com a guerra ainda em pé, o que isso revela sobre a demanda, e a armadilha do fundo que pode não ser fundo
Por quatro meses a leitura do mercado foi quase mecânica. Guerra no Oriente Médio, Estreito de Ormuz travado, oferta restrita, preço subindo. Funcionou como régua de fevereiro a abril, com o Brent passando de US$ 71 antes do conflito para acima de US$ 117 no pico, e a resina praticamente dobrando de preço no mercado brasileiro. Quem comprava polietileno ou polipropileno aprendeu a ler o noticiário do Golfo como quem lê boletim de safra. Míssil em Hormuz, preço para cima. Era simples, e por ser simples, todo mundo internalizou.
Aí, de um mês para cá, a régua parou de funcionar. E quem está na ponta sentiu antes de qualquer relatório confirmar.
O preço cedeu. No Brasil, dependendo da resina e do grade, a queda na ponta beira os 15% em relação ao mês anterior. O polipropileno acumula recuo expressivo no trimestre, puxado por excesso de importado. E o sintoma mais claro de todos apareceu nos pátios: começou a sobrar material. Estoque empilhado em armazém e em porto, conversor sem pressa para comprar, oferta spot perdendo urgência.
Tudo isso enquanto a guerra continua.
Esse é o ponto que quase ninguém está nomeando com clareza, e é o que dá sentido a esta coluna. A escassez que empurrou o preço para cima não foi embora. Os mísseis ainda estão voando. No começo de junho, o presidente americano classificou a própria trégua como "inacreditavelmente fraca" e disse, com todas as letras, que não se importa se as negociações com o Irã acabarem. O CEO da Saudi Aramco avisou que, se Ormuz seguir bloqueado além de meados de junho, o mercado de petróleo só normaliza em 2027. O tráfego no estreito segue muito abaixo do que era antes do conflito. A oferta física continua comprometida.
Então a pergunta que organiza tudo é esta: se a escassez que derrubou o preço para cima ainda está de pé, por que ele caiu?
A demanda venceu a queda de braço

A resposta é que existem duas forças puxando o preço, e elas finalmente entraram em rota de colisão. De um lado, a oferta restrita, que empurra para cima. De outro, a demanda, que define se há quem pague o preço que a oferta restrita pede. Durante o pico da crise, as duas trabalhavam na mesma direção: faltava produto e havia medo, então comprava-se a qualquer preço. Agora elas se separaram. E quem venceu a queda de braço foi a demanda, ou melhor, a falta dela.
Olhe o descompasso no gráfico. O petróleo fez a montanha inteira: subiu acompanhando a geopolítica, bateu no teto em abril, e desceu conforme o mercado se acostumou ao conflito e precificou o risco. A demanda por plástico transformado, essa, nunca fez montanha nenhuma. Ficou fraca o tempo todo, numa ladeira suave para baixo, sem sustos e sem recuperação. O que o mercado está chamando de excesso de oferta não é oferta nova chegando. É demanda que saiu de cena e deixou o material parado.
Os dados internacionais contam a mesma história em todas as praças. Nos Estados Unidos, o propileno grau polímero despencou mais de 11% só no mês de maio, com refinaria rodando forte, estoque alto e demanda fraca em embalagem, automotivo, construção e bens de consumo. Na Ásia, a China virou autossuficiente em polipropileno e despeja excedente na região, com inventário alto e descontos para girar. Na Europa, preço de lado com leve queda, demanda fraca de embalagem e bens de consumo. No Brasil, o relatório de mercado é quase didático ao registrar que não há disrupção de logística, regulação ou mão de obra, e que por isso a urgência do mercado spot enfraqueceu. Traduzindo: o problema não é falta de produto chegando. É falta de quem compre.
A operação doméstica entra nessa equação com uma camada própria. A Braskem vem operando com regularidade no Brasil e priorizando o atendimento do mercado interno, o que dá ao transformador uma percepção legítima de normalidade no dia a dia. Mas essa regularidade convive com utilização ainda distante do pico histórico e com a operação pressionada por aumento de importação e demanda interna mais fraca. Há material na praça hoje. O equilíbrio, porém, é mais frágil do que a calmaria sugere.
A armadilha do fundo falso
É aqui que a leitura precisa de cuidado, porque o erro está à espreita justamente onde parece haver oportunidade.
Porque não é fundo de mercado. É fundo falso. O preço não recuou porque a oferta se normalizou. Recuou porque a economia desacelerou e o consumo encolheu. E essa diferença é tudo. Fundo estrutural é chão, é piso sustentável, é o ponto a partir do qual o preço não desce porque a oferta voltou a fluir. Demanda fraca é sintoma, e sintoma reverte. O preço que cai por falta de comprador sobe de novo no instante em que o comprador volta, ainda mais se a oferta seguir restrita quando ele voltar.
E há um piso técnico que limita até onde essa queda pode ir. O custo petroquímico de base, formado por petróleo mais nafta mais a margem mínima de contribuição do produtor, funciona como chão. Com o Brent na casa dos US$ 90 e poucos e a nafta ainda cara, não há muito espaço para o preço cair sem que alguém passe a produzir no prejuízo. Por isso a leitura mais provável não é uma queda longa e profunda em busca de um fundo estrutural mais baixo. É mais alguma acomodação enquanto o estoque na cadeia é drenado, seguida de lateralização perto desse piso de custo.
A bifurcação, daqui para frente, depende de uma variável só. Se a demanda continuar fraca, o cenário é lateralização perto do piso. Mas se a demanda esboçar qualquer retomada com Ormuz ainda travado, o vetor inverte na hora, e a restrição de oferta que está hoje adormecida volta a comandar o preço para cima. Rápido. O que decide qual dos dois cenários vence não é a oferta, que segue restrita nos dois casos. É a demanda. Por isso a variável a monitorar nas próximas semanas não é o preço da resina. É o ritmo do consumo lá na ponta, no transformador, no varejo, no bolso do consumidor final.
O risco logístico que o calendário esconde
Há ainda um agravante que o conforto do estoque atual mascara, e que merece entrar no radar de quem programa compra para o segundo semestre.
O material importado que sobra hoje nos pátios foi embarcado semanas atrás, quando a janela de compra fazia sentido. A queda de demanda atual significa que menos pedido de importado está sendo colocado agora. E menos pedido agora, com o lead time longo que o importado sempre carrega, significa menos chegada de material em julho e agosto. Some a isso o frete marítimo ainda instável e a possibilidade de racionamentos pontuais, e o desenho que aparece é o de uma oferta importada que pode apertar justamente no meio do segundo semestre, bem quando o estoque atual tiver sido consumido.
Não é cenário garantido. Mas é um risco real, e ele tem uma ironia cruel embutida: a fartura de hoje, ao desestimular a recompra, é parte do que pode gerar o aperto de amanhã. O comprador que lê a calmaria atual como permanência pode estar plantando a própria escassez do segundo semestre.
O que fazer com isso
A conclusão prática não é "o preço caiu, então é hora de comprar pesado". Também não é "vem aí uma alta, então corra para estocar". As duas leituras são apostas disfarçadas de estratégia.
A leitura disciplinada é outra. Hoje é pausa, não oportunidade estrutural de compra. Comprar pesado agora é apostar que o fundo já chegou, e o fundo só chega de verdade quando a oferta normaliza, o que não aconteceu e, segundo a própria Aramco, pode não acontecer antes de 2027 se Ormuz seguir travado. A compra inteligente do momento é tática: cobrir o giro da operação, talvez um pouco além se o custo de carregamento permitir e se houver leitura clara do risco logístico do segundo semestre, mas sem encher armazém imaginando ter travado o menor preço do ciclo.
Porque o menor preço do ciclo, esse, provavelmente ainda está à frente. Só que ele vai aparecer acompanhado de uma demanda tão fraca que ninguém vai querer estar exposto a ela. E quando a demanda voltar, o preço já não estará mais lá.
A escassez virou excesso. Mas a escassez não foi embora. Ela apenas sentou num canto, esperando a demanda voltar para a mesa.

Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, especializada em estratégia, marketing e ESG para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.
Este artigo integra a série de análise estratégica semanal CAP.M, publicada em parceria com a Revista Plástico Sul América.