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CONGRESSO FISPAL TEC DEBATE DESAFIOS GEOPOLÍTICOS, TECNOLOGIA E NOVOS HÁBITOS DE CONSUMO NA INDÚSTRIA DE ALIMENTOS E BEBIDAS

10 de junho de 2026
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A indústria de alimentos e bebidas chega a 2026 pressionada por mudanças que já não se limitam à produção ou ao consumo. Instabilidade internacional, novas tecnologias, revisão de cadeias de suprimentos e transformações no comportamento do consumidor passaram a interferir diretamente na forma como empresas planejam, compram, produzem e lançam produtos. Esses temas estarão no centro do Congresso Fispal Tec, que reunirá especialistas e executivos entre os dias 16 e 18 de junho, durante a Fispal Tecnologia 2026, no São Paulo Expo, em São Paulo.

A programação propõe uma leitura ampla dos desafios atuais do setor. Os painéis abordarão desde os impactos da geopolítica nas cadeias alimentares até os efeitos da popularização das canetas emagrecedoras sobre o perfil de consumo. Também estarão em debate temas como sustentabilidade, automação, gestão de crise, inteligência artificial e aceleração tecnológica, em uma agenda voltada a conectar mudanças de mercado às decisões estratégicas das empresas.

Para Marina Cappi, gerente da feira, o congresso busca funcionar como um espaço de interpretação do cenário atual e de aproximação entre especialistas, lideranças empresariais e tomadores de decisão. Ao afirmar que "O Congresso Fispal Tec é um espaço onde queremos transformar o cenário em estratégia. Para isso, reunimos lideranças e pesquisadores cujos insights podem gerar impactos verdadeiros nas empresas”, Cappi resume a proposta do evento de tratar tendências não apenas como diagnóstico, mas como elementos que podem orientar planejamento, gestão e adaptação do setor.

Um dos eixos centrais da programação será a geopolítica das cadeias alimentares. O tema ganhou relevância à medida que decisões políticas, conflitos, tensões comerciais e instabilidades econômicas passaram a afetar custos, prazos e disponibilidade de insumos. Para a indústria de alimentos e bebidas, tradicionalmente dependente de cadeias integradas e fluxos internacionais de matérias-primas, embalagens, máquinas e ingredientes, a previsibilidade deixou de ser uma condição garantida.

João Alfredo Nyegray, professor da FAE e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e doutor em internacionalização e estratégia, participará do painel e avalia que as empresas precisam incorporar uma visão mais estratégica sobre o ambiente internacional. Para ele, "O que estamos vendo é uma mudança estrutural no modo como o mundo funciona e na própria lógica do sistema internacional”. A análise desloca o debate da geopolítica do campo abstrato para o cotidiano das empresas, já que a instabilidade externa passa a influenciar decisões sobre fornecedores, rotas, estoques e mercados.

Nyegray defende que a resposta empresarial precisa ir além da reação pontual a crises. Segundo ele, “Para navegar nesse novo cenário, as empresas precisam desenvolver inteligência geopolítica aplicada ao negócio. Isso significa mapear dependências críticas na cadeia, diversificar fornecedores, regionalizar operações onde fizer sentido e fazer da resiliência um critério de decisão tão importante quanto custo e eficiência." A fala aponta para uma mudança de prioridade: a busca exclusiva por eficiência passa a dividir espaço com a necessidade de resistência a choques, especialmente em cadeias sujeitas a interrupções.

A visão da indústria será apresentada no mesmo painel por Thiago Carvalho Pereira, vice-presidente e supply chain da Natural One. Ao tratar do risco associado à instabilidade internacional, Pereira chama atenção para os efeitos combinados da volatilidade econômica e da perda de previsibilidade. "O grande risco hoje, além do conflito em si, é a combinação entre volatilidade econômica e perda de previsibilidade. A empresa segue focada em eficiência de custos, como preço e capital empregado, mas passa a ponderar mais sobre disponibilidade devido aos altos riscos de rupturas diante da redução na confiabilidade de entrega", afirma o vice presidente.

A observação reforça que o debate sobre suprimentos deixou de ser apenas uma discussão de preço. Em um ambiente mais instável, garantir fornecimento pode se tornar tão relevante quanto reduzir custos. Essa mudança afeta o desenho das cadeias, a relação com fornecedores e o nível de redundância que as empresas estão dispostas a manter para evitar paralisações.

Pereira sintetiza essa nova lógica ao afirmar que “É preciso investir em capacidade de resposta rápida, em redundância inteligente. A cadeia não pode mais ser desenhada só para funcionar bem quando tudo está normal, ela precisa funcionar principalmente quando tudo dá errado". A frase indica uma revisão do modelo tradicional de eficiência, no qual estoques reduzidos, concentração de fornecedores e operações altamente ajustadas precisam ser equilibrados com alternativas capazes de responder a cenários de ruptura.

Outro tema que será discutido no congresso é a mudança no comportamento do consumidor diante da popularização das canetas emagrecedoras e de medicamentos à base de peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1). O avanço desse tipo de tratamento tem influenciado escolhas alimentares e ampliado a procura por produtos associados à funcionalidade, saciedade, proteína e melhor composição nutricional.

O painel contará com a participação de Manoella Tarouco, head de marketing das marcas YoPRO e Activia da Danone. Para a executiva, a mudança não se limita à redução do consumo, mas envolve uma nova relação com a alimentação. “Pessoas em uso de medicamentos como os à base de GLP-1 tendem a preferir alimentos não apenas com maior densidade nutricional, mas também em saciedade, aporte proteico e manutenção da massa muscular, especialmente diante da redução do apetite", explica Manoella. A interpretação desse movimento impõe um desafio direto à indústria: adaptar produtos sem reduzir a experiência de consumo a um discurso puramente funcional. O consumidor que busca saudabilidade continua considerando sabor, praticidade e conveniência, o que torna mais complexa a formulação de novos produtos e a atualização de portfólios já existentes.

Tarouco destaca essa tensão ao afirmar que "Reformular produtos é complexo porque o consumidor continua buscando prazer, sabor e conveniência, além de saudabilidade. Existe também um desafio importante da velocidade. O comportamento do público está mudando rapidamente e as empresas precisam adaptar portfólio, cadeia produtiva e comunicação em um ritmo muito mais acelerado". A fala revela que a pressão sobre o setor não está apenas na inovação, mas na velocidade com que essa inovação precisa chegar ao mercado e dialogar com consumidores em transformação.

Para a executiva, a resposta das empresas deve ir além de movimentos pontuais. "Mais do que responder a uma tendência de curto prazo, é preciso construir um portfólio preparado para um consumidor que quer viver mais e melhor, com produtos que unem ciência, saúde e prazer." Nesse sentido, o debate sobre canetas emagrecedoras se insere em uma discussão mais ampla sobre longevidade, nutrição e novos critérios de escolha no consumo de alimentos e bebidas.

Ao reunir temas como geopolítica, tecnologia, sustentabilidade e comportamento do consumidor, o Congresso Fispal Tec coloca em pauta um setor que precisa lidar simultaneamente com pressões externas e mudanças internas. De um lado, empresas enfrentam cadeias mais instáveis e necessidade de respostas rápidas. De outro, precisam acompanhar consumidores mais atentos à saúde, à conveniência e ao valor nutricional dos produtos. A combinação desses fatores tende a influenciar não apenas o desenvolvimento de novos itens, mas também a forma como a indústria organiza suas operações, define fornecedores e planeja investimentos.

A Fispal Tecnologia 2026 será realizada de 16 a 19 de junho no São Paulo Expo, localizado na Rodovia dos Imigrantes, km 1,5, na Vila Água Funda, em São Paulo. O evento ocorrerá de terça a quinta-feira, das 13h às 20h, e na sexta-feira, das 13h às 18h.

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