
A recente guerra tarifária envolvendo Estados Unidos e China já provoca reflexos diretos no mercado brasileiro de brinquedos. Embora o chamado tarifaço imposto pelo governo americano não afete as exportações brasileiras, já que a indústria nacional praticamente não direciona seus produtos ao mercado dos EUA, os impactos indiretos começam a gerar forte turbulência no País.
O alerta é da Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos), que observa um movimento de desvio de comércio causado pelo bloqueio do mercado norte-americano a produtos asiáticos. Segundo o presidente da entidade, Synésio Costa, navios carregados de brinquedos que antes tinham como destino os Estados Unidos passaram a desembarcar em massa na América do Sul e Central. “Navios que deveriam levar brinquedos para os Estados Unidos mudaram de rota rumo ao nosso continente. Isso se chama desvio de comércio”, explica Costa.
O fenômeno tem provocado uma rápida expansão da presença chinesa e asiática no mercado brasileiro, pressionando a indústria nacional e criando um ambiente de concorrência ainda mais acirrada. De acordo com Synésio, o excesso de produtos importados tem alimentado o surgimento de “lojinhas de baixo custo” em diversas regiões, muitas vezes sem a devida fiscalização por parte da Receita Federal, que enfrenta dificuldade para controlar o grande volume de mercadorias chegando aos portos. “O resultado não poderia ser mais danoso. Corremos sério risco de perda de participação de mercado”, alerta o dirigente.
Além da enxurrada de brinquedos estrangeiros, a Abrinq também chama atenção para fatores internos que complicam ainda mais o cenário para o setor: alta tributação, encarecimento da mão de obra e aumento do preço do plástico, insumo essencial para boa parte da produção nacional. Esses elementos, combinados, podem pressionar os preços ao consumidor justamente no período mais importante para o setor, o segundo semestre, quando se concentram datas estratégicas como Dia das Crianças e as vendas de fim de ano.
A entidade reconhece que o setor esperava uma recuperação ao longo de 2024, mas o novo cenário internacional pode frustrar essa expectativa. Ainda assim, Synésio Costa mantém um tom de cauteloso otimismo: “Nem todas as variáveis estão a nosso favor, como a guerra tarifária, mas a indústria se renova constantemente.” Para a Abrinq, o momento exige atenção redobrada do governo quanto à fiscalização, políticas de competitividade e medidas para proteger o setor produtivo nacional diante do avanço acelerado do produto asiático no País.