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CHOVEU, E O PREÇO DO RECICLADO PAROU DE CAIR

CADERNO ESTRATÉGICO CAP.M | em parceria com Plástico Sul América

Por Marcelo Mason | CAP.M Consulting

A planilha de julho fechou com o PE virgem praticamente no mesmo patamar de fevereiro, antes do primeiro míssil.
Foram seis meses de guerra no Irã, Ormuz fechando e reabrindo, nafta nas alturas, cracker parando no Golfo Pérsico, e no fim o preço voltou para o ponto de partida.
Quem viveu esses meses comprando resina sabe o tamanho do sobe e desce que teve no caminho, e não vou fingir que foi tranquilo pra ninguém. Em fevereiro, cliente meu comprou estoque na correria, renegociou contrato no susto e refez planilha de custo três vezes dentro do mesmo mês. Em junho, com o acordo assinado e o estreito reaberto, o discurso virou do avesso em duas semanas, acabou, normalizou, pode respirar.
A oferta global de PE não parou de crescer enquanto o mercado acompanhava o noticiário do Golfo. Capacidade nova entrando, importação continuando a desembarcar aqui muito depois de a alta ter passado, já que material embarcado no pico chega meses depois com frete caro, antidumping de quase duzentos dólares por tonelada sobre a resina americana e tudo o mais.
Do outro lado, a demanda simplesmente não apareceu, com conversor comprando o da semana, empurrando reposição e recusando oferta atrás de oferta. Estoque cheio, pátio de porto cheio, e o preço caiu antes do que quase todo mundo projetava. Ou seja, a velha lei da oferta e demanda falou mais alto que qualquer rearranjo de geopolítica.

O que me chamou atenção mesmo foi a outra curva da planilha, a do reciclado, que não desceu junto.

O PCR subiu com a guerra (como sempre sobe quando o virgem dispara), cedeu cinco por cento em junho quando o virgem começou a desabar e depois travou. Julho fechou estável, segundo a MaxiQuim. O virgem desceu a ladeira inteira, o reciclado parou no meio do caminho, e o spread entre os dois, que tinha quase sumido em maio, reabriu. A leitura preguiçosa disso é dizer que o reciclado ficou caro de novo e perdeu a competitividade que a guerra tinha dado à ele. Verdade na aritmética, e rasa como análise, porque a razão de o PCR ter estancado não tem nada a ver com decreto, meta de marca, compromisso ESG ou demanda estrutural nova.

Um reciclador me contou essa semana, numa conversa que não tinha nada de formal, que a disponibilidade de sucata piorou bastante. Perguntei por que esperando alguma explicação de mercado, reorganização de fornecedor, concorrência nova, sei lá. Ele respondeu que era frio e chuva, que tempo ruim derruba a coleta, e mandou um emoji de joinha como quem encerra assunto óbvio. Para ele era óbvio mesmo. Para mim, que passei o semestre escrevendo sobre nafta, Ormuz e Brent, foi a informação mais importante do mês. O preço do reciclado no Brasil parou de cair porque choveu, e não porque o Decreto 12.688/2025 entrou em vigor nem porque marca nenhuma correu atrás de meta. Esfriou, catador saiu menos, cooperativa recebeu menos, o material que alimenta a reciclagem mecânica minguou, e isso bastou para sustentar o preço de uma resina inteira.

Uma cadeia madura absorve um trimestre chuvoso sem mexer no preço, porque tem estoque regulador e contrato longo o suficiente para atravessar sazonalidade. Quando um inverno mais rigoroso aperta a oferta de matéria-prima de um setor inteiro, o que existe ali ainda não chegou a ser cadeia, é um arranjo que funciona enquanto o tempo colabora. Os números de contexto explicam bem por que estamos nesse ponto. O índice de reciclagem no Brasil roda na casa dos 4%, cerca de mil e quatrocentos municípios não têm nenhuma iniciativa de coleta seletiva e boa parte dos que têm oferece um serviço que a própria Abrelpe classifica como incipiente, enquanto a Alemanha está em sessenta e sete por cento. Carlos Silva Filho, presidente da Abrelpe, costuma dizer que estamos vinte anos atrasados, e ele fala isso com diplomacia. Numa base tão fina, qualquer coisa vira variável crítica, porque não existe folga em canto nenhum do sistema pra absorver imprevisto.

Venho escrevendo aqui há meses que o gargalo do PCR não é tecnologia de reciclagem. Reciclador brasileiro sabe reciclar, tem capacidade instalada e boa parte dela roda ociosa esperando matéria-prima decente aparecer. O problema está uma etapa antes, na coleta, e é mais estrutural do que técnico. Julho entregou a demonstração de graça, em tempo real, sem precisar de estudo nenhum, e por isso resolvi escrever sobre chuva numa coluna que era para ser sobre preço de resina.

Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, especializada em estratégia, marketing e ESG para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.

Melina Gonçalves

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