
CADERNO ESTRATÉGICO CAP.M | em parceria com Plástico Sul América
Por Marcelo Mason | CAP.M Consulting
Um transformador de embalagens com quem venho trabalhando começou o projeto de homologação da sua cadeia de PCR com uma certeza de que todo o reciclado que ele comprava entraria na conta do Decreto 12.688. É uma empresa organizada, com fornecedores de longa data, notas fiscais em ordem e volume de reciclado relevante na linha. Depois de meses de mapeamento, visitas a recicladores e conferência de documentos, o resultado é que ele vai conseguir homologar cerca de metade do volume que considerava reciclado. A outra metade existe e está nas embalagens que ele vendeu, mas não se sustenta diante das regras que a Portaria GM/MMA nº 1.778 estabeleceu em setembro.
Quero deixar claro que esse é um bom resultado, e talvez um dos melhores que o mercado vai ver no primeiro ciclo de reporte. A empresa vai chegar a 30 de abril de 2027 com metade do volume demonstrável, cadeia documentada e fornecedores qualificados, enquanto boa parte dos transformadores brasileiros ainda nem começou a descobrir qual é a sua própria proporção. O número incomoda na primeira leitura, mas ele é a fotografia honesta de uma cadeia que até o ano passado nunca tinha precisado provar nada, e é justamente essa fotografia que a maioria das empresas vai tirar pela primeira vez quando já for tarde para corrigir o ano de 2026.
O que ficou de fora não caiu por um motivo só, e é isso que torna o problema difícil de enxergar de dentro. Uma parte vinha de fornecedores que compram sucata de intermediários informais e não conseguem demonstrar a origem pós-consumo do material que reciclam, o que antes era um detalhe e agora é condição de existência do PCR. Outra parte era apara pós-industrial, material limpo e de boa qualidade que o reciclador misturava ao pós-consumo no mesmo lote, sem separação documental, e que pela norma simplesmente não conta. Havia ainda volume de reciclado de origem importada, que a portaria excluiu expressamente das metas dos fabricantes nacionais, e diferenças entre a massa declarada nas notas e a massa que de fato passou pela linha, o que pesa mais agora que o índice é calculado pela relação entre a massa de reciclado incorporado e a massa total de embalagens colocadas no mercado. Nenhum desses casos envolve má-fé. São práticas que o mercado sempre aceitou porque ninguém pedia a prova, e que a regulação agora transformou em volume perdido.
Esse é o ponto que eu gostaria que marcas e transformadores levassem para as suas reuniões de planejamento. A pergunta relevante deixou de ser quanto reciclado a empresa compra e passou a ser quanto reciclado a empresa consegue demonstrar, e as duas respostas podem ser muito diferentes. Um transformador que declara hoje 30% de conteúdo reciclado a um cliente pode descobrir, na hora da auditoria, que tem 15% comprováveis, e a diferença não é apenas um problema de reporte ao governo. Ela vira um problema contratual com a marca, que contava com aquele índice para compor a sua própria meta, e um problema de exposição jurídica para as duas partes, num ambiente em que a portaria vedou créditos e certificados justamente para impedir que a conta fosse fechada no papel.
Existe também um lado dessa história que quase ninguém está olhando, e que o mesmo projeto deixou evidente. O PCR comprovado passou a ter valor próprio, separado do reciclado comum, porque é o único que serve para cumprir a meta. O transformador que consegue demonstrar a origem do seu material não está apenas em dia com o decreto, ele se torna o fornecedor preferencial das marcas que precisam fechar o próprio índice, e em alguns casos passa a ter excedente de PCR homologado com valor de mercado. Em pouco tempo, a diferença de preço entre reciclado comprovado e reciclado sem origem documentada deve aparecer nas negociações, e quem tiver a cadeia organizada vai estar do lado certo dessa diferença.
Em mais de vinte anos circulando por fábricas de transformação e plantas de reciclagem, aprendi que as cadeias que funcionam bem raramente são as que têm a melhor tecnologia, e quase sempre são as que têm a melhor disciplina documental. Com a homologação de PCR isso ficou ainda mais evidente. As empresas que avançam mais rápido são as que começam pela origem do material e não pela plataforma de rastreabilidade, que separam pós-consumo de pós-industrial já no momento da compra e não depois que o lote foi misturado, que avaliam o fornecedor pela capacidade de provar o que vende antes de olhar o preço por quilo, e que entendem a homologação como um processo contínuo de gestão da cadeia, e não como um projeto com data para acabar. Nenhuma dessas atitudes exige investimento pesado, mas todas exigem que alguém dentro da empresa, ou ao lado dela, olhe para a cadeia com o olhar do auditor antes que o auditor chegue.
O calendário não deixa margem para esperar. O reporte de 30 de abril vai tratar de todo o conteúdo reciclado incorporado entre janeiro e dezembro de 2026, e restam três meses para que as empresas organizem a documentação de um ano que em grande parte já passou. Se um transformador organizado, com fornecedores estáveis e disposição para fazer o trabalho, chega a metade do seu volume, é razoável supor que a média do mercado, no primeiro reporte, fique bem abaixo disso. Quem começar agora ainda consegue salvar parte de 2026 e, sobretudo, chegar a 2027 com a cadeia pronta para metas que sobem todos os anos. Quem deixar para depois vai descobrir a sua própria metade que não se comprova no momento em que já não haverá o que fazer com ela.

Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, especializada em estratégia, marketing e economia circular para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.
