
CADERNO ESTRATÉGICO CAP.M | em parceria com Plástico Sul América
Por Marcelo Mason | CAP.M Consulting

A São Paulo Climate Week deste ano teve a pauta que se espera de uma semana do clima, com transição energética, aquecimento global, financiamento verde e metas de descarbonização ocupando a maior parte da agenda. No meio disso tudo, um painel reunindo eureciclo, Planton, Natural One e Cirklo tratou de reciclagem de plástico, e foi de longe a hora e meia mais útil que passei por lá.
Não porque os outros temas sejam menos importantes, mas porque reciclagem de plástico costuma entrar nesse tipo de evento pela porta dos fundos, quando entra. Existe um mito ambiental bem estabelecido de que reciclagem de plástico é uma falácia, uma promessa que a indústria vende e nunca cumpre, e esse mito circula com força em espaços de discussão climática. Não é verdade, e faz tempo que não é. Tem milhares de desafios, precisa de colaboração de todos os elos da cadeia e de um norte regulatório claro, isso é fato e ninguém sério discute. Mas está acontecendo, e estamos consideravelmente mais avançados hoje do que cinco anos atrás.
O que mudou nesse intervalo, e que talvez seja a mudança mais relevante da década para o nosso setor, é a natureza da obrigação.
De compromisso voluntário a obrigação legal
Durante quinze anos a circularidade no Brasil e no mundo avançou basicamente por compromisso voluntário. Marca assinando meta pública, aderindo a pacto global, publicando relatório de sustentabilidade com percentual de conteúdo reciclado. Foi importante, criou linguagem comum, formou fornecedor, e não tiro o mérito de ninguém que se comprometeu quando não precisava.
O problema do compromisso voluntário é que ele é sempre suscetível à sustentabilidade financeira e à pressão do mercado por resultado trimestral. Quando o ciclo aperta, ele é a primeira coisa a ser renegociada internamente, e isso não é maldade de gestor, é como funciona empresa de capital aberto sob pressão de acionista.
Escrevi aqui há poucas semanas sobre exatamente esse mecanismo funcionando ao vivo. Com o virgem despencando depois da reabertura de Ormuz e voltando ao patamar pré-guerra, o PCR de qualidade ficou instantaneamente menos competitivo na comparação, e o comprador de reciclado sentou e esperou. Não porque o reciclado tenha piorado, mas porque o virgem melhorou de preço. Compromisso voluntário não sobrevive a ciclo prolongado de baixa da resina, e quem trabalha com isso há algum tempo já viu esse filme mais de uma vez.
É por isso que o Decreto 12.688 no Brasil e o PPWR na Europa importam tanto, e importam de um jeito diferente de tudo que veio antes. Eles transformam circularidade em obrigação legal, com meta, prazo e sanção. O decreto exige 22% de conteúdo reciclado pós-consumo já em 2026 para empresas de grande porte, com as pequenas e médias entrando em julho, subindo para 26% em 2028 e 40% até 2040, com meta de recuperação de 32% correndo em paralelo. O PPWR europeu, que passou a se aplicar em agosto, tem calendário parecido , só que com metas mais agressivas inclusive de reciclabilidade, retorno e reuso, reflexo de uma cadeia muito mais madura.
Quatro cadeiras, quatro peças do quebra-cabeça

O que tornou aquele painel interessante não foi nenhuma fala isolada, foi a composição da mesa. Cada cadeira representava uma peça diferente de um problema que ninguém resolve sozinho.
A eureciclo levou o braço novo de certificação e fornecimento de PCR com rastreabilidade da origem até a transformação final, que é a resposta ao que o decreto passou a exigir em termos documentais. A Planton apareceu com a combinação que eu acho mais subestimada do setor, juntando conhecimento técnico, tecnologia e inteligência artificial para traduzir análise de ciclo de vida e inventário de carbono numa linguagem que fundo de investimento verde e linha de crédito conseguem ler. A Natural One trouxe a perspectiva de marca que carrega PCR no DNA e não como campanha de temporada. E a Cirklo, maior recicladora independente de PET do país, nascida da união entre Green PCR e Global Pet sob controle da eB Capital, chegou com o fundo Circulate Capital no capital e capacidade para mais de quatro bilhões de garrafas por ano em duas plantas.
Sobre a Planton, vale abrir um parêntese que acho revelador. Ela fez com a eureciclo uma pesquisa mostrando que, se apenas 10% do mercado brasileiro de embalagem plástica adotasse PCR, seriam cerca de 100 mil toneladas de plástico desviadas do descarte por ano e 213 mil toneladas de CO2e evitadas. Esse número é a ponte que faltava entre a pauta da semana do clima e a pauta do nosso setor. Reciclado deixou de ser assunto de resíduo e virou assunto de carbono, e quem souber medir isso com método vai ter acesso a capital que quem não sabe medir não vai ter.
Quem não vai passar no crivo
O ponto importante do painel tem a ver com o que vem pela frente na comprovação.
O decreto não pede declaração de boa-fé. Pede Certificado de Crédito de Reciclagem, Certificado de Massa Futura, Certificado de Estruturação, com nota fiscal passando por verificação independente e homologação antes de o dado ser enviado. Ou seja, todo o volume de PCR que circula hoje no mercado brasileiro vai precisar de origem comprovável, cadeia de custódia e auditoria de terceira parte.
E tem muita gente vendendo PCR hoje que não vai passar nesse crivo.
Não estou falando necessariamente de má-fé, embora ela exista. Falo principalmente de material sem origem documentada, de mistura de pós-industrial com pós-consumo declarada sob o guarda-chuva genérico de reciclado, de cadeia informal que funciona há décadas na base da confiança e do papel escrito à mão. Isto sem falar de uso de normas base européia que permitem o transito de PIR como PCR. Isso vai deixar de servir, e vai deixar de servir rápido.
Quem quiser saber o que acontece quando um sistema de metas roda sem rastreabilidade robusta é só olhar para o que aconteceu com o vidro este ano, com denúncia ao Ministério Público sobre indícios de fraude em crédito de reciclagem, envolvendo volume declarado que não fechava com o tamanho do município de origem. O plástico tem arquitetura regulatória parecida e o mesmo risco. A diferença é que ainda dá tempo de construir o mecanismo antes do problema, e é isso que Recircula e SISREV-BR estão dispostos a resolver.
E é aí, que o sistema de entidade gestora como a eureciclo entra para para dar validação.
O que as marcas disseram
A parte que me deixou razoavelmente otimista foi ouvir das marcas presentes que sim, dá para cumprir as metas.
A capacidade instalada existe. O parque industrial existe. A tecnologia de reciclagem existe e boa parte dela roda ociosa esperando matéria-prima decente aparecer. O que falta não é máquina nem know-how técnico, e sim transparência, rastreabilidade, conexão entre elos que hoje mal se falam, e colaboração de verdade entre marca, transformador e reciclador.
São palavras que parecem genéricas quando escritas assim em sequência, e não são. Transparência significa saber de onde veio cada quilo. Rastreabilidade significa poder provar isso para um auditor. Conexão significa que o reciclador conhece a especificação do transformador antes de produzir, e não depois de o lote ser recusado. Colaboração significa contrato de médio prazo em vez de cotação spot toda semana.
É exatamente isso que as empresas daquela mesa fazem, cada uma no seu pedaço. E é o que fazemos aqui na consultoria, ajudando cliente a montar cadeia em vez de comprar reciclado no susto quando o prazo aperta.
Precisamos de muito mais gente fazendo isso, e precisamos rápido, porque 2026 já começou e o relógio do decreto está correndo desde outubro do ano passado.
O setor e o meio ambiente agradecem.

Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, especializada em estratégia, marketing e ESG para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.

