O Brasil enfrenta um desafio crescente na gestão dos resíduos eletroeletrônicos (REE): a maior parte deles, cerca de 27%, tem origem nas residências, e não em empresas ou órgãos públicos, como se imaginava. O dado integra o levantamento do Projeto RECUPERE, conduzido pelo grupo de pesquisa REMINARE, do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Os resultados foram apresentados no VII Seminário Internacional de Resíduos Eletroeletrônicos (SIREE), no Rio de Janeiro, e expõem gargalos estruturais que comprometem a circularidade e a logística reversa no país.
Segundo o estudo, o Brasil gera 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, mas apenas 14% têm destinação correta. A pesquisadora Dra. Lúcia Helena Xavier, coordenadora do grupo REMINARE, explica que a indústria nacional de reciclagem opera bem abaixo da capacidade instalada: “As quatro maiores empresas do setor somam 88% da capacidade produtiva do país, cerca de 285 mil toneladas por ano, mas processam menos de 180 mil. Falta matéria-prima, e ela está nas casas das pessoas”, afirma.
Os números reforçam o que os pesquisadores observaram em campo: em 85% dos lares brasileiros há equipamentos quebrados, parados ou guardados sem destinação. “Quem não tem um celular velho na gaveta? O maior gargalo é a falta de políticas que incentivem o descarte adequado e ampliem a rede de pontos de coleta”, explica Dra. Emanuelle Freitas, também integrante do projeto. O estudo evidencia que o descarte incorreto está mais ligado à ausência de informação e infraestrutura do que à falta de conscientização dos consumidores.
De acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, cabe ao comércio, fabricantes e importadores implementarem sistemas de logística reversa. No entanto, o Projeto RECUPERE identificou falhas significativas na atuação do varejo. Um questionário enviado a 55 lojas em diferentes regiões do país, sobre a existência de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), não obteve respostas. Nas visitas presenciais, verificou-se que poucos estabelecimentos oferecem coleta adequada, e, quando oferecem, os pontos estão mal sinalizados ou de difícil acesso. “Muitas vezes, o vendedor sequer sabia onde estava o equipamento de coleta. A informação só vinha após procurar um gerente”, relata o pesquisador Dr. Genyr Kappler.
A ausência de integração entre varejo e reciclagem aumenta a complexidade do ciclo reverso, já que os pontos de consumo são extremamente dispersos, cerca de 50 milhões de domicílios. “O comércio está em posição estratégica: é quem vende e deveria também recolher. No entanto, a logística reversa ainda é vista como custo, e não como parte do ciclo de responsabilidade compartilhada”, destaca Kappler.
Outro ponto crítico é o papel das cooperativas de catadores, que realizam parte essencial da coleta e triagem, mas enfrentam precariedade. Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Gestão de Resíduos Sólidos (SINIR), até novembro de 2024 havia 660 organizações de catadores, sendo 48% atuantes com resíduos eletroeletrônicos. O RECUPERE entrevistou 67 dessas cooperativas e identificou que 95% realizam triagem, 90% armazenam o material e 70% fazem desmontagem, muitas vezes de forma improvisada e sem equipamentos adequados. “Os catadores são elo essencial da economia circular, mas ainda trabalham em condições frágeis, recebendo valores abaixo do salário mínimo e dependendo de programas sociais”, explica Dra. Luciana Mofati, pesquisadora do CETEM e autora de tese sobre o tema pela UERJ.
Mofati também destaca o potencial do Crédito de Logística Reversa (CLR), regulamentado pelo Decreto 11.413/2024, como instrumento de incentivo econômico. “O CLR pode fortalecer cooperativas e atrair empresas para financiar a reciclagem, tornando o sistema mais sustentável. Mas é preciso integrar os catadores às políticas públicas e às cadeias formais”, defende. O estudo aponta ainda que a ausência de infraestrutura municipal adequada agrava o problema. Muitos galpões usados pelas cooperativas são cedidos pelas prefeituras, mas sem licenciamento ou fiscalização, o que gera insegurança jurídica e limita a ampliação das operações. Os pesquisadores reforçam que os municípios precisam atuar como parceiros, e não como entraves.
Em síntese, o Projeto RECUPERE revela um cenário paradoxal: enquanto há indústrias prontas para reciclar, falta fluxo de resíduos, enquanto há consumidores dispostos a descartar, faltam locais para entregar, e enquanto há catadores experientes, falta estrutura e integração. O resultado é que milhões de toneladas de materiais, muitos de alto valor econômico, acabam estocados em residências ou descartados de forma incorreta, aumentando riscos ambientais e desperdiçando recursos. Para os pesquisadores, a saída passa por fortalecer a articulação entre governo, setor produtivo, comércio e cooperativas, com incentivos financeiros, campanhas educativas e expansão dos pontos de coleta. “Os resíduos eletroeletrônicos não são apenas lixo: são oportunidade de reindustrialização verde, geração de renda e economia circular”, conclui Dra. Lúcia Helena Xavier.