
CADERNO ESTRATÉGICO CAP.M | em parceria com Plástico Sul América
Por Marcelo Mason | CAP.M Consulting
Escrevi nesta coluna, em julho, que a lei de oferta e demanda havia falado mais alto que a geopolítica. O polietileno virgem tinha voltado ao patamar anterior ao conflito no Irã, e a conclusão parecia evidente. Era, no entanto, uma tese confortável de sustentar: o Estreito de Ormuz havia reaberto, o Brent cedera e tudo conspirava a favor do argumento. Tese confortável só vale alguma coisa quando passa por um teste.
Setembro ofereceu o teste.
O conflito voltou a escalar. Os Estados Unidos destruíram cerca de dez petroleiros iranianos ao longo de uma semana. Os Houthis atacaram instalações sauditas em Abha, Jazan, Najran e Khamis Mushait. A Arábia Saudita fechou o oleoduto Leste-Oeste depois de ataques de drone, e Omã adiou a reunião ministerial que poderia ter aliviado o prêmio de risco. O tráfego por Ormuz caiu para dígitos únicos de travessias diárias, ante os 20,7 milhões de barris de petróleo e líquidos que cruzavam o estreito por dia no último trimestre de 2025. O Brent superou os US$ 106. As casas de análise revisaram para cima: a EIA elevou o segundo semestre de 2026 em oito dólares, o Goldman Sachs foi a US$ 85 no ano com alerta de US$ 120 caso o Golfo permaneça restrito, o HSBC a US$ 90.
Era, em resumo, o mesmo quadro que em fevereiro produziu altas de 70% no polipropileno e de 80% no polietileno no mercado brasileiro em questão de semanas, movimento que a Abiplast então classificou como sem paralelo mesmo na comparação com a pandemia.
Desta vez o repasse não se repetiu na mesma intensidade. E é precisamente esse descolamento entre o custo de reposição, que subiu, e o preço realizado, que resistiu, o que confirma a tese em vez de derrubá-la. A ICIS antecipava no fim de agosto que a firmeza de preço se tornaria irregular a partir de setembro, com parte dos preços de polietileno sob pressão de baixa à medida que os compradores precificassem oferta crescente e reposição de importados. O comprador está com estoque confortável e a demanda esfriou. Quando isso ocorre, o vendedor anuncia o aumento que quiser, mas a nota fiscal sai com outro número.
A geopolítica não desapareceu. Deixou apenas de mandar sozinha.
O canal que o mercado tem ignorado
Convém abrir aqui um parêntese, porque a discussão sobre o impacto da crise no Oriente Médio costuma se concentrar no lugar errado.
Fala-se do barril e da nafta. É o canal mais evidente e o mais fácil de acompanhar, já que a cotação está em qualquer tela. Para quem importa resina no Brasil, contudo, o custo que mais pesa hoje é outro: o frete. Prêmio de seguro de guerra, rotas alongadas, disponibilidade de navio e previsibilidade da janela de embarque. Quando o estreito opera em dígitos únicos de travessias por dia e o tráfego regional se reorganiza em torno dessa restrição, o efeito sobre o custo posto e sobre o prazo é mais imediato e mais persistente que a oscilação da molécula. Material embarcado no auge da tensão desembarca meses depois carregando o frete daquele momento, num mercado que já mudou. Quem faz programação de compra viu isso acontecer duas vezes apenas neste ano.
A ressalva não altera a direção do argumento. Qualifica-o. A geopolítica segue relevante, mas atua sobretudo pelo custo logístico e pela previsibilidade, não pelo preço da matéria-prima.
A segunda onda
Os números que sustentam a primazia da oferta e da demanda dispensam retórica.
Nos últimos cinco anos, a capacidade global de polietileno cresceu 21 milhões de toneladas, a um ritmo de 3,8% ao ano, contra uma demanda que avançou 1,9%. O resultado apareceu nas taxas de operação, que encerraram 2025 em 77% no polietileno e 75% no polipropileno, níveis historicamente associados a margem comprimida em toda a cadeia.
A onda não se encerrou. A Argus projeta uma segunda leva de adições entre 2027 e 2028, com 23 milhões de toneladas de polietileno e 15 milhões de polipropileno. A China lidera, com cerca de 10 milhões de toneladas somando as duas resinas. Os Estados Unidos acrescentam duas plantas de HDPE de 1 milhão de toneladas cada, voltadas à exportação. O Oriente Médio contribui com outros 4 milhões distribuídos entre Emirados Árabes, Catar e Arábia Saudita. As taxas globais de operação devem tocar o piso de 74% nesse período, com recuperação apenas depois de 2029. Para o polipropileno chinês, a Argus projeta fundo de 70% em 2027.
Um exemplo concreto dessa oferta em trânsito: a Golden Triangle Polymers, associação entre Chevron Phillips e QatarEnergy em Orange, no Texas, projeto de US$ 8,5 bilhões com cracker de etano de 2.080 mil toneladas anuais e duas unidades de HDPE de 1 milhão cada, entrou em comissionamento em 2026 e deve operar plenamente em 2027, com produção quase integralmente destinada à exportação. É capacidade nova chegando ao mercado exportador exatamente no fundo do ciclo.
Do outro lado da equação, a racionalização avança sem compensar. Segundo a S&P Global Commodity Insights, desde abril de 2024 ExxonMobil, Shell, SABIC, Dow, Versalis e TotalEnergies fecharam ou anunciaram o fechamento de sete crackers na Europa até 2027, envolvendo cerca de 4,5 milhões de toneladas anuais de eteno, 2,3 milhões de propeno e 430 mil de butadieno. No Japão, a Eneos consolida duas unidades em Kawasaki até o fim de 2027. Na Coreia do Sul, as autoridades estudam racionalizar entre 2,7 e 3,7 milhões de toneladas, o que alcançaria um quarto da capacidade nacional de crackers. Parece muito. A ICIS, porém, estima que seriam necessárias 18 milhões de toneladas de fechamentos de eteno até 2028 para devolver as taxas de operação ao patamar de 85%.
A conta não fecha. Daí a expectativa consolidada entre ICIS, Argus e Chemical Market Analytics de fundo de ciclo entre 2027 e 2029, com recuperação de margem apenas depois disso.
O petróleo que sobe agora e cede depois
Para quem monta orçamento, um detalhe importa: as revisões de setembro elevaram as pontas de 2026 e 2027 sem alterar a direção de médio prazo.
A própria EIA, que elevou o segundo semestre deste ano a cerca de US$ 90, projeta queda para perto de US$ 77 no segundo trimestre de 2027 e média de US$ 74 no ano. O Goldman Sachs trabalha com US$ 80 em 2027. O J.P. Morgan reduziu a projeção de fim de 2026 de US$ 95 para US$ 78. Para 2028, os agregadores convergem para a faixa de US$ 55 a US$ 70. Do lado da demanda, a Agência Internacional de Energia projeta queda de 2,5 milhões de barris diários em 2026, e a Opep cortou a estimativa de crescimento pela quinta vez consecutiva.
O mercado, portanto, trata o prêmio atual como temporário. Há nisso uma assimetria estrutural que merece registro: produtores com matéria-prima de etano, no Golfo americano ou no Oriente Médio, mantêm vantagem de custo entre US$ 200 e US$ 350 por tonelada de polietileno sobre os crackers a nafta da Ásia e da Europa quando o Brent se situa entre US$ 75 e US$ 85. Com o barril acima de US$ 100, a vantagem se amplia. É por essa razão que a migração de nafta para gás em curso nos polos da Bahia e do Rio Grande do Sul faz sentido estratégico, independentemente do ciclo de preço.
O polipropileno anda por conta própria
Convém separar as duas resinas, porque não contam a mesma história.
O polipropileno responde ao propeno, e o propeno responde a paradas de PDH nos Estados Unidos, à temporada de furacões no Golfo do México e à expansão acelerada de capacidade de PDH na China, fatores que pouco dialogam com a curva do petróleo. Foi o que produziu a sequência que a ICIS resumiu no evento de agosto: dos 30 aos 60 em quatro meses e de volta aos 30. Nos Estados Unidos, o propeno grau polímero tocou mínima de cinco anos em novembro de 2025, disparou à faixa de 40 a 45 centavos por libra em março e recuou em seguida.
Daí a projeção apresentada em agosto mostrar o índice de polipropileno subindo de 65,56 para 69,49 centavos por libra entre 2026 e 2027, enquanto o Brent médio projetado cai. Petróleo em queda e polipropileno em alta não constituem erro de planilha. É o propeno andando com as próprias pernas. Em paralelo, a China deve tornar-se exportadora líquida de polipropileno, com mais de 4 milhões de toneladas de capacidade nova entrando no país apenas neste ano e autossuficiência acima de 90%, que funcionou como amortecedor durante o pior da crise de oferta.
O caso brasileiro
Chega-se então à parte que mais interessa a quem compra resina no Brasil, onde o quadro doméstico segue partitura própria.
Em 27 de agosto, a Camex renovou por doze meses a alíquota de 20% de imposto de importação sobre seis tipos de resinas de polietileno e polipropileno, com vigência a partir de 17 de outubro de 2026 e validade até outubro de 2027. O ponto merece destaque porque parte relevante do mercado ainda trabalha com a premissa anterior, de que a alíquota retornaria a 12,6% neste mês. Não retorna. Apenas o PVC volta aos 12,6% na mesma data, justamente por já existir antidumping de 43,7% sobre o material americano. A correção altera toda conta de paridade de importação construída sobre a hipótese antiga.
Somado ao antidumping definitivo sobre o polietileno dos Estados Unidos e do Canadá, o resultado é um mercado interno protegido dentro de um mundo em superávit. A Abiquim defendeu a renovação citando a exposição da indústria brasileira a importações originadas da sobreoferta chinesa e americana, argumento que encontra amparo na escala da segunda onda de capacidade descrita acima. Ao mesmo tempo, o repasse ao preço interno chamou atenção: o IPA da Fundação Getulio Vargas registrou em setembro alta de 23,6% no PEAD e de 20,1% no PEBD, o que levou a equipe econômica do governo a pedir esclarecimentos e a estudar eventual revisão da medida para o polietileno.
Não cabe a esta coluna arbitrar a disputa. A discussão sobre política industrial é legítima dos dois lados, e cada agente defende o que lhe compete defender. Ao planejamento interessa reconhecer que há duas realidades em curso. Fora do país, superávit estrutural, taxas de operação em queda e preço pressionado. Dentro, déficit de capacidade, proteção tarifária renovada e preço em alta. O Brasil permanece deficitário em PEAD, com 1,25 milhão de toneladas de capacidade para 1,5 milhão de demanda; em PEBDL, com 1 milhão para 1,4 milhão; e em polipropileno, com 1,85 milhão para 2,05 milhões.
Quem projeta compra pela curva internacional erra o Brasil. Quem projeta apenas pelo Brasil será surpreendido pela onda de 2027 e 2028.
O que fazer
Três conclusões parecem seguras para quem fecha orçamento agora.
A primeira é refazer as contas de paridade de importação com a alíquota correta. Modelo que assuma 12,6% a partir deste mês está errado e produzirá decisão errada.
A segunda é tratar 2027 e 2028 como fundo de ciclo, e não como período de recuperação.
A terceira é separar polipropileno de polietileno na análise. São dinâmicas distintas, com condutores distintos, e tratá-las como bloco único conduz a erro de projeção.
Resta o que talvez seja a lição do ano, válida também para quem escreve sobre o assunto. O conflito no Oriente Médio encarece o frete e introduz volatilidade. O balanço entre oferta e demanda define o preço internacional. E a política comercial determina quanto disso efetivamente chega à porta da fábrica.
E você, como está revisando o orçamento de resina para 2027?

Marcelo Mason é fundador da CAP.M Consulting, especializada em estratégia, marketing e ESG para os setores de embalagens, plásticos e bens de consumo. Co-fundador da Rede pela Circularidade do Plástico, atua há mais de 20 anos na cadeia petroquímica e de embalagens no Brasil e na América Latina.

