Encontrar Artigos

A CATEGORIA QUE NINGUÉM GANHOU

Por Maurício Jaroski, engenheiro químico e sócio-executivo e diretor da área de Economia Circular no Grupo MaxiQuim.

O prêmio não tinha sido desenhado assim. Ele foi anunciado em 2019 para acontecer em agosto de 2020, presencial, em Joinville, com o setor circulando, se cumprimentando, trocando cartão. O mundo fechou antes. A equipe da Plástico Sul remarcou tudo para 12 de novembro, adaptou para formato híbrido, transmitiu ao vivo e entregou os troféus de forma simbólica, para uma plateia que estava em casa.

Começo por aqui e declaro o óbvio: este texto não é neutro. Integro a curadoria técnica do Prêmio Plástico Sul América desde a primeira edição, junto com a MaxiQuim. Escrever sobre ele é escrever sobre algo que ajudei a construir, e prefiro dizer isso no primeiro parágrafo a deixar o leitor descobrir no rodapé.

Inaugurar um prêmio é difícil em qualquer ano. Inaugurar num ano em que ninguém podia se reunir era uma decisão que tinha tudo para ser adiada. A Silvia Viale e a Melina Gonçalves escolheram não adiar, e a equipe inteira da Plástico Sul América reinventou o formato em poucos meses. Seis edições depois, a cerimônia de 2025 lotou a CIC de Caxias do Sul e anunciou a maior mudança editorial da revista em 25 anos.

Só que a história mais interessante do prêmio não está nas plateias. Está na lista de categorias.

Porque a lista mudou. E ela mudou por pressão de quem se inscreve.

No começo, o peso estava em logística reversa e compromisso social, a agenda de uma indústria que precisava provar que dava destino ao que colocava no mercado. Em 2024, entraram categorias reformuladas e dedicadas a máquinas e equipamentos, e nasceu o reconhecimento às entidades de classe. Em 2026, chegam duas novas: IA na Indústria e Excelência em Exportação.

Ninguém escreveu esse relatório de tendências. As empresas escreveram, sem saber, com aquilo que escolheram inscrever ano após ano. A curadoria só leu.

Nesses sete anos, o que mudou não foi o volume de cases. Foi a densidade deles. Ficha técnica obrigatória nas categorias técnicas. Indicador em vez de intenção. Laudo em vez de adjetivo. Em 2023 foram 136 cases avaliados em dez categorias por um comitê multidisciplinar; o que separa aquela safra das primeiras não é o número, é o quanto cada inscrição passou a se parecer com um relatório técnico e cada vez menos com um material de marketing.

Isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque o prêmio começou a reprovar.

Em edições anteriores, duas categorias ficaram desertas. Embalagens Inteligentes foi uma delas. Indústria 4.0 foi a outra. Deserta significa que nenhum case inscrito atingiu a nota mínima. O troféu existia, o palco existia, a categoria estava anunciada, e a comissão julgadora decidiu não entregar.

Pare um segundo nesse fato.

Num mercado em que “prêmio” frequentemente é sinônimo de relacionamento comercial, existe um mecanismo formal, previsto em regulamento, que permite chegar ao fim do processo e dizer que não houve mérito suficiente. Notas de 1 a 5 por critério. Três etapas de avaliação. Jurado com qualquer vínculo profissional, societário ou comercial com um projeto é obrigado a declarar impedimento e sair daquela avaliação.

E aqui está o ponto que me interessa de verdade, depois de mais de vinte anos nessa cadeia: é a possibilidade de não premiar que dá valor ao prêmio entregue.

Inverta a leitura de quem se inscreve. Submeter um case não é pedir aplauso. É colocar sua própria narrativa técnica diante de um comitê com professores universitários, dirigentes sindicais, especialistas de mercado e consultores, que vão pontuar resultado comprovado, potencial de replicação e impacto econômico, de graça, e antes que o seu cliente, o seu auditor ou o regulador façam a mesma pergunta com menos boa vontade.

Com a rastreabilidade de conteúdo reciclado saindo do discurso e entrando no contrato, esse tipo de escrutínio deixou de ser vitrine. Virou teste de resistência. Agora junte as duas pontas.

A categoria Indústria 4.0 ficou deserta. O setor falava de Indústria 4.0 em todo congresso, todo estande, todo material institucional. Quando foi preciso inscrever um case com resultado mensurável e submetê-lo a nota, a categoria não se sustentou.

Em 2026, o mesmo território volta com outro nome: IA na Indústria. E volta com a régua explícita no regulamento: o case precisa atender pelo menos dois entre inovação tecnológica, resultados comprovados, escalabilidade, retorno financeiro e impacto ambiental ou operacional.

Escrevi aqui, meses atrás, sobre o risco de delegar julgamento a modelos que concordam com você. Falei em fricção como proteção. Pois a fricção, quando institucionalizada, tem uma forma bem menos filosófica do que eu imaginava: ela se chama exigência de resultado comprovado num formulário de inscrição.

Se a categoria de IA vai se preencher em 2026, eu não sei. As inscrições ainda estão abertas. Mas é exatamente por não saber que acho que vale a pena olhar: a resposta vai dizer, com precisão desconfortável, quanto da conversa sobre inteligência artificial na indústria do plástico já virou operação, e quanto ainda é apresentação.

Sete anos depois do estúdio sem plateia, o alcance é outro.

A 7ª edição passou a receber, pela primeira vez, cases de empresas e organizações sediadas em qualquer país da América do Sul. Inscrições em português, espanhol ou inglês. E uma categoria nova chamada Excelência em Exportação, que reconhece quem abriu mercado, se adequou a exigência regulatória estrangeira, certificou, internacionalizou.

Escrevi em agosto sobre o que os corredores da Interplast contavam: uma indústria discutindo, com razão, como defender o mercado interno da pressão dos importados.

O formulário de 2026 faz a pergunta pelo outro lado. Não quem se protegeu. Quem conseguiu sair.

As inscrições do 7º Prêmio Plástico Sul América de Inovação e Sustentabilidade foram prorrogadas até 1º de outubro. São gratuitas. A cerimônia acontece em 19 de novembro, em formato híbrido.

O case que você não inscrever não vai perder. Também não vai ser testado. E se, ao abrir o formulário, você perceber que o seu projeto não sobreviveria a uma ficha técnica e a uma nota de 1 a 5, considere que acabou de receber uma informação bem mais útil do que o troféu.

Maurício Jaroski é engenheiro químico, sócio-executivo e diretor da área de Economia Circular no Grupo MaxiQuim. Acompanha o mercado de resinas plásticas virgens e recicladas há mais de uma década, com dados publicados mensalmente pelo Indicador MXQ, referência de precificação para contratos em toda a cadeia de reciclagem nacional.