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NACIONALIZAÇÃO DE COMPONENTES PARA EXTRUSORAS GANHA PESO NA BUSCA POR PRODUTIVIDADE E MENOR RISCO DE PARADAS

Precisão dos elementos de rosca, acompanhamento do desgaste e maior proximidade entre fabricante e transformador colocam o fornecimento local no centro das estratégias de manutenção de linhas de extrusão

A produção de compostos termoplásticos depende de uma combinação que vai muito além da formulação da resina. Matéria-prima, configuração do processo, desempenho dos equipamentos e manutenção precisam funcionar de maneira coordenada para que propriedades como resistência mecânica, estabilidade térmica, dispersão de aditivos e homogeneidade sejam preservadas ao longo da fabricação. Nesse conjunto, componentes que muitas vezes permanecem fora da visão direta do transformador podem determinar tanto a qualidade do material quanto a produtividade de toda a linha.

Nas extrusoras de rosca dupla, utilizadas em operações de compounding, incorporação de cargas, pigmentos e aditivos e em diferentes processos de transformação, os elementos de rosca estão entre esses componentes críticos. O desgaste ocorre de maneira gradual e pode começar a alterar o comportamento da máquina antes de provocar qualquer falha evidente. Perda de vazão, instabilidade operacional, necessidade frequente de correção de parâmetros, maior consumo de energia e deficiência na mistura podem ser manifestações de um problema que, se não acompanhado, acaba aparecendo tanto no custo de produção quanto nas características do composto final.

A criticidade desses componentes também ajuda a explicar por que sua reposição passou a ser observada sob uma perspectiva que envolve não apenas preço, mas prazo, suporte técnico e previsibilidade. Historicamente, parte relevante das peças destinadas a extrusoras utilizadas no Brasil dependeu do fornecimento externo. O modelo amplia a quantidade de opções disponíveis, mas expõe o transformador a variáveis como câmbio, tributação, logística internacional e tempo de reposição.

Essa equação ganha importância em linhas que trabalham continuamente e nas quais uma interrupção inesperada pode comprometer a programação de produção, entrega ao cliente e aproveitamento da capacidade instalada. Por esse motivo, a discussão sobre nacionalização passa a envolver uma questão de gestão industrial: quanto vale ter o componente disponível antes que o desgaste se transforme em parada?

É nesse mercado que atua a Usimatos Serviços de Usinagem de Precisão, de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. A fabricação desse tipo de componente exige que o projeto considere o material processado e as características específicas da aplicação. Temperatura, esforço mecânico, abrasividade e condições de operação interferem diretamente na seleção do material e na geometria das peças.

Segundo Adair José de Matos, sócio-administrador da Usimatos, a escolha da matéria-prima utilizada na fabricação está diretamente associada à vida útil esperada do componente. “A seleção do aço-liga é fundamental, pois os componentes precisam apresentar propriedades adequadas de resistência ao desgaste, dureza, resistência mecânica e à fadiga, garantindo maior confiabilidade e vida útil.” A precisão dimensional também assume papel central porque os elementos não trabalham isoladamente.

Eles integram um conjunto mecânico no qual pequenas diferenças geométricas podem alterar encaixe, folgas e desempenho durante a extrusão. Isso faz com que o processo de reposição seja mais complexo do que simplesmente reproduzir uma peça com as mesmas dimensões externas. Para o transformador, a qualidade desse conjunto se manifesta principalmente na estabilidade do processo. 

À medida que os elementos se desgastam, a extrusora pode perder eficiência na mistura e na dispersão dos componentes da formulação. Em determinadas situações, pigmentos, cargas ou outros aditivos deixam de ser incorporados de forma homogênea, obrigando a operação a modificar parâmetros para preservar o padrão do produto.

O consumo de energia também pode aumentar. Quando uma linha precisa operar por mais tempo ou sob condições mais exigentes para entregar o mesmo volume, o desgaste deixa de representar apenas uma questão de manutenção e passa a afetar diretamente o custo por tonelada produzida. Essa característica ajuda a mudar a lógica da manutenção. Em vez de utilizar a quebra ou a perda acentuada de desempenho como referência para a troca, empresas começam a acompanhar a evolução das condições dos componentes e programar as intervenções.

A empresa também trabalha a aferição de desgaste de canhões e fusos, com elaboração de relatórios para acompanhamento da condição do equipamento. Matos explica que a principal consequência dessa prática é permitir que a empresa transforme uma ocorrência imprevisível em uma decisão programada. “Esse acompanhamento transforma a manutenção em uma decisão planejada. Em vez de esperar que um componente atinja uma condição crítica ou provoque uma parada, o cliente consegue programar a intervenção, organizar a compra dos componentes e reduzir os impactos sobre a produção.” O efeito dessa previsibilidade ultrapassa a oficina de manutenção.

 Quando a empresa conhece previamente a condição da extrusora, pode coordenar estoques de peças, períodos de parada, mão de obra e programação da produção. Em processos contínuos, a antecipação reduz a possibilidade de que uma falha mecânica determine a agenda da fábrica.

FORNECIMENTO LOCAL MUDA A EQUAÇÃO DE COMPETITIVIDADE

A nacionalização, entretanto, não elimina a competição internacional. Pelo contrário. Componentes asiáticos, principalmente de origem chinesa, ampliaram a pressão sobre os preços e passaram a oferecer uma referência importante para o mercado brasileiro.

Para o empresário, essa condição limita a possibilidade de um fabricante nacional construir sua estratégia exclusivamente a partir do valor da peça. “Hoje existe uma forte pressão das importações, principalmente de produtos chineses, sobre os preços do mercado. Por isso, entendemos que competir exclusivamente por preço não é suficiente.” Essa disputa desloca parte da diferenciação para outros fatores. 

Prazo de entrega, capacidade de desenvolver uma solução específica, proximidade para avaliação de um problema, recuperação de componentes e assistência técnica passam a integrar o cálculo do custo total de manutenção. Em uma importação, um preço unitário menor pode perder parte da vantagem caso a empresa precise manter estoques maiores ou enfrentar um intervalo prolongado entre a identificação do desgaste e a chegada da reposição.

No fornecimento local, a possibilidade de avaliação técnica mais rápida e desenvolvimento sob medida pode reduzir esse intervalo. É nessa combinação que o fornecedor brasileiro procura construir espaço. No caso da Usimatos, a estratégia inclui não apenas fabricar a peça nova, mas trabalhar com recuperação de componentes, inspeção e serviços relacionados às condições da extrusora.

O modelo também permite atender configurações que nem sempre seguem integralmente os padrões originais do equipamento. Extrusoras submetidas a mudanças de aplicação, novas formulações ou adaptações feitas ao longo dos anos podem demandar componentes desenvolvidos para uma condição específica de processamento.

A personalização ganha relevância em um mercado no qual a mesma tecnologia de extrusão atende setores bastante distintos. Indústria alimentícia, química, transformação de termoplásticos e produção de tinta em pó, por exemplo, operam com diferentes materiais, temperaturas, cargas e exigências de produtividade. Isso significa que a durabilidade de uma peça não depende apenas de sua fabricação, mas da correspondência entre o material utilizado, a geometria e as condições reais de processo.

NACIONALIZAÇÃO AINDA ENFRENTA DEPENDÊNCIAS

Apesar da possibilidade de produzir os componentes no país, a nacionalização não significa independência completa das cadeias internacionais. A fabricação de peças de alta exigência mecânica continua dependente, em muitos casos, de aços-liga e matérias-primas especiais que não possuem oferta doméstica suficiente ou competitiva. Custos industriais, tributação, infraestrutura e burocracia também interferem na comparação com fornecedores externos. Dessa forma, trazer a fabricação para o Brasil reduz determinadas vulnerabilidades, mas não elimina fatores estruturais que influenciam a competitividade da indústria nacional.

Ainda assim, Adair considera que existe margem para ampliar a substituição de peças importadas por componentes desenvolvidos localmente. “Existe um espaço bastante significativo para ampliar a nacionalização de componentes para extrusão no Brasil. Principalmente quando unimos a fabricação de peças à manutenção e à recuperação de equipamentos.” A afirmação indica uma mudança importante na forma de avaliar a nacionalização.

 O ganho potencial não está apenas em produzir no território brasileiro aquilo que antes era adquirido no exterior, mas em aproximar fabricação, diagnóstico e manutenção. Quanto mais esses serviços funcionam de maneira integrada, menor tende a ser a distância entre a identificação de um problema e sua correção.

Para uma indústria de compostos submetida a exigências crescentes de qualidade, eficiência energética e regularidade de fornecimento, essa proximidade passa a ter valor econômico mensurável. Uma extrusora operando fora de suas condições ideais pode continuar produzindo, mas com menor vazão, maior consumo e maior variabilidade do composto. Nesse cenário, a perda ocorre antes da quebra.

A evolução da manutenção preventiva reforça justamente essa leitura. A peça de reposição deixa de ser tratada apenas como resposta a uma falha e passa a integrar o planejamento da produção. Relatórios de desgaste, histórico de intervenções e acompanhamento das condições operacionais criam parâmetros para decidir quando substituir, recuperar ou manter um componente em operação.

O avanço da nacionalização dependerá, portanto, menos de uma comparação isolada entre preços e mais da capacidade de demonstrar o custo industrial completo de cada alternativa. Prazo, estoque, produtividade, consumo energético, suporte técnico e risco de parada fazem parte da mesma conta.

Em linhas nas quais pequenas alterações de desempenho podem representar perdas significativas ao longo de milhares de horas de operação, a disponibilidade de componentes deixa de ser uma questão secundária. A fabricação local de elementos de rosca e outros itens de reposição passa a integrar uma estratégia mais ampla de confiabilidade industrial, na qual manutenção planejada e proximidade técnica ajudam a preservar aquilo que, no fim do processo, mais importa ao transformador: estabilidade, qualidade e continuidade da produção.