
Mercado brasileiro movimentou 590 mil toneladas no terceiro trimestre de 2026, enquanto a produção doméstica apresentou queda anual de 3% e as compras externas cresceram 48,8%.
O mercado brasileiro de embalagens plásticas flexíveis encerrou o terceiro trimestre de 2026 com sinais de recuperação na demanda, mas também com um descompasso entre o consumo e o desempenho da indústria nacional. Enquanto diferentes segmentos consumidores mantiveram ou ampliaram suas necessidades de embalagens, a produção doméstica apresentou retração na comparação anual, acompanhada por um avanço expressivo das importações. O cenário evidencia um ambiente de maior concorrência para os fabricantes brasileiros, mesmo diante da expansão do mercado interno.
O consumo aparente atingiu 590 mil toneladas entre julho e setembro, crescimento de 1,1% em relação ao trimestre anterior e de 0,6% frente ao mesmo período de 2025. Já a produção nacional somou 569 mil toneladas, com avanço trimestral de 0,8%, insuficiente para reverter a queda de 3% registrada na comparação anual. Os dados integram o Relatório de Desempenho da Indústria Brasileira de Embalagens Plásticas Flexíveis, elaborado pela MaxiQuim para a Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis (ABIEF).
Os resultados demonstram que a recuperação observada na passagem do segundo para o terceiro trimestre não foi suficiente para recolocar a produção brasileira no patamar do ano anterior. Ao mesmo tempo, a diferença entre o volume consumido e o produzido internamente reforça a importância do comércio exterior no abastecimento do mercado, especialmente diante do crescimento das compras externas.
Importações alcançam maior participação da série recente
O avanço dos produtos importados foi um dos movimentos mais expressivos do período. As compras externas de embalagens plásticas flexíveis totalizaram 43,2 mil toneladas, crescimento de 7,6% em relação ao segundo trimestre de 2026 e de 48,8% na comparação com igual período de 2025. Com esse desempenho, a participação dos importados no consumo aparente brasileiro chegou a 7,3%, acima dos 6,9% registrados no trimestre anterior e dos 4,9% observados um ano antes. Segundo o relatório, trata-se do maior percentual da série recente, indicando uma mudança na composição do abastecimento nacional.
A evolução das exportações também contribuiu para ampliar o desequilíbrio comercial. Os embarques brasileiros alcançaram 22,6 mil toneladas, alta de 3,9% frente ao segundo trimestre, mas retração de 24,4% na comparação anual. Como resultado, a balança comercial do segmento apresentou déficit de 20,6 mil toneladas, superior ao saldo negativo de 18,4 mil toneladas registrado entre abril e junho. No terceiro trimestre de 2025, o setor ainda apresentava superávit de 900 toneladas.
A combinação entre maior entrada de produtos estrangeiros e redução das exportações anuais revela uma pressão competitiva sobre a indústria instalada no Brasil. Embora o consumo tenha apresentado crescimento, o avanço da demanda não se refletiu proporcionalmente na produção nacional, sugerindo que parte das oportunidades abertas pelo mercado interno vem sendo atendida por fornecedores internacionais.
Alimentos lideram demanda, enquanto higiene e limpeza apresentam maior crescimento anual
A distribuição do consumo entre os diferentes mercados mostra comportamentos distintos. O segmento de alimentos permaneceu como o principal destino das embalagens plásticas flexíveis, respondendo por 226,9 mil toneladas, equivalentes a 38,5% da demanda nacional. O volume cresceu 2,9% em relação ao segundo trimestre, mas apresentou retração de 1,7% frente ao terceiro trimestre de 2025. A permanência dos alimentos na liderança evidencia a importância das embalagens flexíveis para atividades de grande escala e consumo recorrente.
Entretanto, a evolução desigual entre os segmentos demonstra que o comportamento do mercado também depende das características de cada cadeia consumidora, incluindo sazonalidade, condições econômicas e necessidades específicas de acondicionamento. O agronegócio respondeu por 84,1 mil toneladas, com recuo trimestral de 2,8% e crescimento anual de 3%. No mercado industrial, a demanda alcançou 79,1 mil toneladas, avanço de 2,4% sobre o trimestre anterior, mas queda de 0,8% na comparação anual. Já o segmento de bebidas consumiu 68,2 mil toneladas, registrando crescimento de 1,3% no trimestre e de 2,1% em relação ao mesmo período de 2025.
As maiores taxas de expansão anual foram observadas nos segmentos de higiene pessoal e limpeza doméstica. O primeiro atingiu 17,1 mil toneladas, com crescimento de 7,4% em relação ao terceiro trimestre de 2025 e de 3,6% na comparação trimestral. O segundo alcançou 31,1 mil toneladas, altas de 6,9% e 3,1%, respectivamente. A diferença entre o volume absoluto e as taxas de crescimento ajuda a compreender a dinâmica do mercado. Enquanto alimentos continuam determinando grande parte da demanda, segmentos menores apresentam ritmos de expansão superiores, contribuindo para diversificar as oportunidades de fornecimento.
Esse comportamento foi observado por Eduardo Berkovitz, presidente da ABIEF, ao analisar as diferentes atividades consumidoras. “É interessante perceber que os alimentos seguem liderando a demanda, enquanto as indústrias de higiene pessoal e limpeza doméstica avançam na comparação anual”, pontua. A evolução desses mercados também reforça a necessidade de acompanhar as mudanças na composição do consumo. Para os transformadores, atender setores com características distintas envolve considerar requisitos técnicos, volumes de produção e especificações de materiais, fatores que influenciam o planejamento industrial e a capacidade de resposta às oscilações da demanda.
Uso de resina reciclada cresce em meio à retração anual da produção
A composição da produção brasileira também apresentou mudanças no terceiro trimestre. As embalagens monocamada responderam por 55% do volume fabricado, totalizando 314 mil toneladas, enquanto as estruturas multicamada representaram 45%, com 255 mil toneladas. Na comparação com o segundo trimestre, a produção de monocamada cresceu 1,4%, enquanto a de multicamada apresentou leve retração de 0,1%. Em relação ao terceiro trimestre de 2025, ambas registraram queda, de 3,2% e 2,8%, respectivamente, indicando que o recuo anual da atividade atingiu diferentes tipos de estruturas.
Em contraste com esse desempenho, a produção de embalagens com resina reciclada manteve trajetória de crescimento. O volume chegou a 29,4 mil toneladas, avanço de 3,1% frente ao trimestre anterior e de 6,8% na comparação anual. Apesar da expansão, o material reciclado ainda correspondeu a aproximadamente 5% da produção brasileira de embalagens flexíveis no período. As resinas virgens permaneceram predominantes, com 540 mil toneladas, equivalentes a 95% do total. Esse volume cresceu 0,6% no trimestre, mas apresentou retração anual de 3,5%.
A diferença de desempenho entre os dois grupos aponta para uma ampliação gradual do espaço ocupado pelos materiais reciclados, ainda que sua participação permaneça reduzida. O movimento ocorre em um contexto no qual a indústria busca conciliar a incorporação de matérias-primas recuperadas com requisitos de desempenho, qualidade e viabilidade técnica das embalagens. A continuidade dessa expansão dependerá de fatores como disponibilidade de matéria-prima, regularidade do fornecimento e adequação dos materiais às diferentes aplicações industriais. O crescimento proporcional do uso de reciclados, portanto, representa um avanço que ainda precisa ganhar escala para modificar de maneira mais significativa a composição da produção nacional.
Quarto trimestre combina expectativa de demanda e cautela na produção
Para os últimos meses de 2026, a expectativa é de que a sazonalidade de fim de ano contribua para sustentar o consumo de embalagens plásticas flexíveis, especialmente em alimentos, bebidas e atividades ligadas ao varejo. Esse movimento, entretanto, ocorre em um cenário de crescimento econômico moderado e juros elevados, fatores que continuam influenciando o crédito, os investimentos e as decisões de consumo. A possibilidade de aumento da demanda não significa necessariamente uma aceleração da produção doméstica. O comportamento dos estoques e a participação dos produtos importados podem influenciar a capacidade dos fabricantes brasileiros de atender ao mercado, enquanto férias coletivas e paradas industriais programadas para dezembro também tendem a reduzir o ritmo das operações.
A avaliação apresentada por Eduardo Berkovitz indica que o encerramento do ano exigirá atenção a esses fatores. “Mesmo com a perspectiva favorável para a demanda, vemos, no Relatório, que a produção nacional poderá desacelerar nos últimos meses do ano, em relação ao terceiro trimestre. O desempenho dependerá principalmente do nível de estoques na cadeia e do comportamento das importações, fatores que influenciarão o atendimento do consumo pelos fabricantes nacionais.” A análise evidencia uma das principais questões colocadas pelos indicadores do terceiro trimestre.
Mais do que acompanhar a recuperação da demanda, será necessário observar quanto desse crescimento poderá ser convertido em produção interna, diante da concorrência internacional e das condições econômicas que afetam as decisões industriais. Assim, o setor encerra os primeiros nove meses de 2026 com resultados que combinam crescimento do consumo, maior utilização de resinas recicladas e pressão sobre a competitividade da produção brasileira. O desempenho do último trimestre será importante para avaliar se a recuperação recente poderá sustentar a atividade nacional ou se o avanço das importações continuará ampliando sua participação no abastecimento do mercado.

